Minas Flight 2002  

Este relato tem como objetivo dividir com os amantes do vôo de planador algumas aventuras muito legais que passei, aqui perto de casa, no Minas-flight.

Porque Minas-flight ? Apesar do imenso estado de MG estar ao lado de SP, o vôo à vela encontra na parte central e Este do estado de MG um relevo bem acidentado.  Os aeroclubes de Pará de Minas, Varginha e Juiz de Fora conhecem bem este terreno.  Por outro lado este relevo difere das planícies de São Paulo, sempre me atraíram pela diversidade das possibilidades de vôo.

Então vamos lá!

11/04/2002 - O DIA DAS NUVENS – RIO CLARO(SP) – ARAXÁ(MG)

 O planador estava no hangar do Gil desde o Campeonato de Rio Claro, decolei na quinta-feira, junto com o DG500M dos amigos Karl e Heinz, que não conseguiram cavar tempo para se juntar a esta pequena viagem.  Inicialmente tomamos a proa de Brotas, sim aquele lugar que tudo mundo faz canoagem, para sair da área da Academia da Força Aérea, que realiza intenso treinamento nesta região.  O Controlador foi muito prestativo e perto de Itirapina autorizava a prova de São Carlos, e posteriormente direto para o destino.  Talvez hora do almoço da instrução, em todo caso o espaço aéreo estava liberado.  O dia estava bom, após a decolagem desliguei a 400m já enganchando numa térmica de 2m/s, a base não subiu muito ficou ao redor de 1200m durante a maior parte do dia.

Fazendo a fonia para os 2 planadores, perto de São Carlos nos separamos, o ZBX foi para Matão e o XEZ tomou a proa de Araxá.  Após Franca, por nós conhecida como ponto de virada de Campeonatos feitos em Bebedouro, o terreno começa a ficar diferente, os grandes arados vermelhos da região N paulista vão aos poucos escasseando.  O vôo não estava rendendo muito.  Então no través de Franca resolvi ligar o “turbo”do planador, conforme o linguajar do pessoal de vôo livre, “entubei” subindo aproximadamente uns 800m, aí sim consegui um bom avanço até praticamente o Rio Grande, divisa SP/MG.

Escolhi atravessar o rio Grande, justamente após a barragem de uma das represas de Furnas, pois em cima do grande lago é quase impossível o cruzamento.  Karl, que atravessa essa região todos os anos para as viagens ao NE, me avisara que seria “improvável” cruzar o rio sem motor.  O ponto escolhido inclusive tem uma excelente pista de asfalto, ao lado da vila do pessoal que mora ao lado da barragem.  Fiquei triste quando vi que a pista tinha um “X” de cada lado, e que provavelmente dentro de alguns anos vamos perde-la também.  Novamente subi uns 300-400m dentro de uma nuvem, para ter a segurança de alcançar o outro lado.  O visual muito bom mesmo, do outro lado a serra da Canastra, que inclusive abriga um parque ecológico, com a beleza de uma região levemente montanhosa. 

Enormes CBs espalhavam-se deste lado do Rio Grande, tendo o meu objetivo, Araxá no meio de um grande céu azul, impossível para chegar de planador.  Desviei 90 graus à direita, e usei todas as nuvens da região para entrar no planeio final.  Saí com 1400m acima do solo (uns 300m novamente dentro de uma nuvem) para o planeio de 40km o que dava uma tranqüilidade razoável, com uma boa reserva.  Aliás, aprendi que na chegada de novos locais não é bom fazer um planeio apertado, pois a coordenada pode ser um pouco diferente, pode haver tráfego na pista, etc... O aeroporto de Araxá tem uma excelente pista, e o pessoal do aeroclube foi muito gentil, deixaram eu guardar o DG800B junto com os ultraleves e outras aeronaves.

Vôos regulares a SP devem iniciar-se no final do mês, aproveitando a boa infra-estrutura do aeroporto que conta com abastecimento e uma estação meteorológica completa.

12/04 MAIS UM AEROCLUBE DE PLANADORES !  ARAXÁ – PARÁ DE MG

As 11:00 já estava cansado de esperar, resolvi decolar, e quase fui para o chão novamente, mas finalmente consegui boiar e subir devagarzinho.  Neste dia iria tentar ir até a represa de Três Marias, para em seguida rumar a Pará de MG.  O tempo estava esquisito com cobertura de 7/8 as 11:30 da manhã, térmicas ruins.  Havia chovido em vários locais em virtude dos CBs do dia anterior.  Não conseguia aproar a cidade de Tês  Marias, enormes CBs bloqueavam a proa ideal.  Aos poucos com um dia fraco consegui ir evoluindo, com a base das nuvens ao redor dos 1.100m.  Olhando as WACs sempre quis voar nesta região pois mostram cadeias de montanhas ao lado da represa bem definidas e talvez exploráveis para vôo de onda.  Infelizmente a meteoro não ajudou muito, tive que dar a volta. 

Mas o tempo foi melhorando, e consegui chegar na parte central da represa, numa cidadezinha chamada morada nova, com uma pista de Terra.  Logicamente ao lado da represa as térmicas eram fraquinhas.  E para o Norte, sentido da cidade de Três Marias o céu completamente azul, tipo uma linha meteorológica, possivelmente efeito da represa e chuvas no dia anterior, além das chuvas no norte de MG, sul de GO (conforme o noticiário da TV).

O vôo com destino a Pará de MG, foi lento mas constante, sem CBs, com nuvens rasas (pouco desenvolvimento vertical) e uma paisagem muito interessante.  A 80km fora do destino, novamente uma pequena serra, terminavam os arados que vinham desde a represa.  Fiquei pensando no Campeonato Mineiro de Planadores, “onde o pessoal vai voar com os Quero-queros ???” , levei uns 25min subindo numa térmica de 02/0.3m/s para entrar no planeio final.  Estava na borda do tempo bom, para o sul o tempo estava bem melhor, mas de onde eu vinha estava tudo azulando.  Finalmente consegui subir, e logo depois entrei nas grandes e pacíficas nuvens, que com maior instabilidade seguramente virariam CBs.  Cruzei a serra a 35/40km de Pará de Minas, e aos poucos fui vendo a cidade.

Fizemos as manobras para guardar dentro do hangar o planador, que de novo sentia-se no meio volovelista, ao lado dos 3 KW-1 do clube, e o Puchacz acrobático do clube.  Este foi um dia que comecei a aprender a ser paciente, ou seja, subir em térmicas fracas com paciência para chegar no destino. 

Fotos

13/04 – UAI’S DAY  PARÁ DE MINAS – GOVERNADOR VALADARES

 

Quando cheguei no aeroporto, vi o famoso ET de Varginha no hangar, esfregando melhor os olhos vi que era o AV, Quero-quero do Montevecchi que estava iniciando a montagem do planador, para voar no Campeonato Mineiro de Planadores.  Tirei o DG do hangar para iniciar o carregamento das Baterias. Sempre tirava o DG da sombra, para aproveitar o sol o máximo possível, pois não há lugar dentro do planador para levar o carregador de baterias. 

O Navarro junto com Tatinho chegaram bem acompanhados J e com enormes olheiras, resultado dos 900km de estrada de SP.  Rapidamente o Navarro fez o formal briefing no hangar do clube, informando que quem ganhasse dele seria expulso do clube.  Resultado foi que apenas o Montevecchi ganhou dele, e mesmo assim no último dia já que iria retornar a Varginha e com isso não havia o que temer.  O pessoal foi muito simpático, batemos a foto oficial, todos os planadores juntos, e ao redor das 11:00 decolei.

Enganchei logo e aproei a Serra da Moeda, ao sul de Belo Horizonte, a base inicialmente a 1000m foi subindo para 1400m no decorrer do dia.  Já em cima da serra, vi um lago com um lindo condomínio que deu água na boca mesmo.  Estava procurando a rampa do pessoal de vôo livre, e até o controle tentou me ajudar, mas não achei nada.  Passei ao lado de montanhas bem altas, perto de Catas Altas, e Cocal mostrando a vocação de MG para as montanhas.  Perto de Itabirito grandes jazidas de minério sendo escavadas com as enormes máquinas terrestres. O tempo após o meio dia ficou estourado, permitindo acelerar o vôo.  O Controle BH (APP-BH) foi muito solícito, sempre me ajudando durante o vôo.  Logicamente perdi contato com eles, uns 80km de distância da cidade.  

Fui derivando para a esquerda já que as nuvens estavam mais bonitas, a rota seguia o Rio Doce, que serve com o excelente referência e as margens dele situam-se as principais cidades desta região de MG.  Tentei ficar sempre na parte montanhosa, mais instável e indicando melhores térmicas.  Na hora que tive que entrar no vale do Rio Doce, não consegui mais subir, fiz um longo planeio, que indicava –300m para Valadares.  Agora bordejando o Rio, fui ficando apreenssivo, olhando a estrada, única possibilidade de pouso fora.  Aliás durante esta perna da viagem pouquíssimas opções de pouso fora.  Com toda a paciência a 400m de altura peguei um fiapo aqui e outro lá, até que consegui chegar a 15km fora da cidade, novamente a 300-400m, enganchei numa térmica fraquinha que saía de cima de um pequeno morro.   Daí foi tudo alegria, atravessei o rio Doce, e peguei um rojão de 4 m/s e fui até a base, que estava apenas a 2000m acima do solo.  Com certeza influencia do início da região mais árida de MG, que faz de Valadares local obrigatório do Circuito mundial de Paraglider e Asa delta.

Cheguei em cima do Pico do Ibituruna, bem imponente, onde uma asa-delta preparava-se para decolar, ficou acenando para mim.  Passei várias vezes por cima da pedra e fui explorar o sul.  Já cansado do vôo resolvi pousar, logo após o pouso começou aquela chuva de verão apenas em cima da pista, deu para lavar bem o planador.  Apesar da oferta de guardar o planador no hangar do aeroclube (de ultraleves) preferi deixar estaqueado na frente do simpático terminal do aeroporto.  Estavam por lá todos abalados, devido a um acidente fatal ocorrido semanas antes com um ultraleve numa cidade vizinha, mas muito curiosos com o DG, e prestativos.  O aeroporto sala AIS, com rádio que não estava funcionando, combustível, etc... 

Tentei falar com o pessoal de vôo livre que havia entrada em contato via internet, mas não tive sucesso.

Fotos

13/04 – PICO DA BANDEIRA 

GOVERNADOR VALADARES – VIÇOSA – PONTE NOVA

Decolei antes das 11:00 da manhã, já pendurando numa boa térmica.  Deixando o famoso Ibituruna a minha esquerda, com o céu bem coberto 7/8 de novo, aproei o Pico da Bandeira.  A região de vôo ficou extremamente montanhosa durante todo o vôo, estava muito confiante nas térmicas, pois não havia pouso fora, poucos campos de pouso.  A base ficou ao redor dos 1000m, e teimava em não subir.  Mas com a boa cobertura dava para voar com certa tranqüilidade, apesar do relevo bem mas bem inóspito.  Para o pessoal que gosta de geologia, prato cheio, com rochas nos mais variados formatos e cores.

A emoção foi muito grande, na aproximação do Pico da Bandeira, vi que parte do maciço estava dentro das nuvens.  Encostei na parede dos contrafortes da grande montanha, comecei a voar ao redor, passando para o lado do Estado do Espírito Santo.  A sensação foi indescritível, estar voando sem motor ao lado de grandes vales, florestas intocadas (parque Nacional do Caparaó).  Vi cachoeiras lindas, com certeza uma beleza indescritível mesmo.  Em um dos vales, no finalzinho acho que vi uma fazenda com criação de trutas, com os grandes tanques de água, com certeza aproveitando a água fria que desce da montanha.

Fiquei com vontade de ficar por lá mais um dia, quem sabe no dia seguinte seria possível ver a montanha com seus 2890m de altura..  A pista confiável mais próxima fica em Cachoeiro do Itapemirim, no ES, mas justamente na proa oposta da minha rota.  Depois descobri que já houve aeroclube de planadores nesta localidade, uns 20 anos atrás.  Decidi ir em frente, para não ficar tão longe do destino.  Após dar a volta e começar a navegar para Ubá, perto da fronteira com estado do RJ, fiquei muito baixo, a uns 100m, insistindo muito consegui subir, fiquei meio desmoralizado perguntando porque não havia ligado o motor antes.  Enquanto pensava nisso fiquei baixo novamente, a uns 300m, novamente uma grande batalha para subir.  É interessante que neste tipo de vôo, com distâncias de 300-400km cobertas, existem pequenas regiões onde o microclima é totalmente desfavorável para formação de térmicas.  Nos campeonatos, normalmente voamos num raio de 100km da pista em região mais uniforme e principalmente conhecida.  Um pouco off-topic, acho que temos que voar campeonatos em regiões não conhecidas, temos muito a ganhar com as novas experiências proporcionadas por terreno novo.

Do Pico da Bandeira até Ubá, mais morros, caramba o vôo inteiro foi feito em cima de solo difícil, com pouca agricultura, no máximo café e reflorestamento que se adapta ao relevo montanhoso local.  O dia foi azulando, tive que efetuar vários desvios para não chegar baixo.  Mas em Ubá subi muito, e resolvi aproveitar a altura, aproei Viçosa, que fica em cima da serra, o que talvez ajudaria no dia seguinte a saída.  Cheguei fácil a Viçosa, com vento de cauda.  Pousei ao redor das 17:00.  O aeroporto tem um asfalto bem antigo, mas ainda funcional, fui recebido por muita gente, o que me assustou um pouco.  A pista ao lado da estrada não tem guarda campo, e o único hangar é da Universidade Federal, muito burocratizada, portanto difícil conseguir autorização para guardar o DG dentro.  Alias ao lado da final havia uma vaquejada, eles até pararam para olhar os 2 rasantes que dei em cima da pista, foi engraçado ter uma audiência dessas depois de tantas horas de vôo totalmente solo. 

Resolvi ir para outra pista 35km ao Norte, onde me falaram que havia um clube de ultraleves e guarda campo, queria retornar a Ubá mas com vento contra não dava mais tempo.  Fui para a pequena cidade de Ponte Nova, realmente a pista impressionou, grande, construída em cima da montanha e 1 ultraleve no pátio.  Cadê os hangares do clube ? Não vi nenhum... Infelizmente muitas pessoas andando pela pista, dei 2 passagens baixas, a maioria saiu, mas mesmo assim após o pouso quase bati numa criança e sua mãe, que desviaram no último momento.  Fiquei muito bravo, conversei com o guarda campo, que naquela tranqüilidade mineirense disse que não tinha como expulsar o pessoal de lá.  Entretanto, fiquei feliz pois havia maior segurança para o pernoite .

Com uma carona fui até o hotel, que foi muito humilde.  O maior problema foi encontrar um restaurante, a cidade não tem nenhum, e no Domingo a noite... Consegui achar um local razoável onde um sanduíche de frango com queijo foi minha alimentação do dia.  Olhando o mapa vi que estava próximo a Ouro Preto, havia percorrido mais de 100km para o Norte de Ubá.

Fotos

 

14/04 – MAR DE MORROS CONTINUA

PONTE NOVA – NOVA FRIBURGO – JUIZ DE FORA

Como dormi muito mal, fui cedo para o Aeroporto, novamente a mesma pessoa me deu carona de volta, estava curioso para ver a decolagem do DG.  As 9:00 já estava com o master ligado recarregando as baterias, e as 10:00 estava impaciente, decolei.  Já no início do outono foi interessante sentir a primeira térmica logo em cima da pista.  A base estava ainda nos 600-700m, e as 10:20 fiquei baixo, liguei o motor.  Fiquei super chateado, foi a primeira vez que ligava o motor de “resgate” e não apenas para decolar.  Mas tudo funcionou bem, ele pegou na primeira.  Passei por Viçosa novamente, Ubá e Leopoldina, no rumo sul para a serra Carioca.  Passei em cima do aeroporto de Leopoldina que fica um pouco afastado da cidade, mas pareceu ser muito bem cuidado, pintado, com bom hangar, ou seja excelente base para um eventual pernoite. 

Após chegar no Vale do Paraíba novamente, vi as montanhas da Serra dos Órgãos (será este o nome ?), muito altas e encobertas.  O terreno foi subindo, e finalmente cheguei a Friburgo.  Foi difícil este trecho pois estava voando a 500m do solo, que subia cada vez mais.  A cidade cresceu muito, mas nas encostas mais altas ainda existe muito verde e casas misturadas no meio.

Tentei olhar para o que havia após o pico mais alto, mas não deu, estava encoberto e tarde.  Comecei a voltar para Juiz de Fora.  Não lembro da distância, mas se não me engano uns 170km para voar.  O tempo estava encoberto nesta região, uma espécie de “barreira” meteorológica entre o interior de MG e o litoral carioca.  O Progresso foi lento.

Na chegada a Juiz de fora, 16:30 aproximadamente, já não havia mais nada, um pouco antes perdi muito tempo saindo da bananosa de 200m, lembrei da África do Sul, onde o Alberto se safou em cima de uma pedreira.  Fiz o mesmo, demorou para funcionar, mas lentamente fui subindo (faltou o Nimbus 4...).  Vi uma pista abandonada 40km fora de Juiz de Fora, seria minha alternativa, mas consegui subir uns metrinhos novamente.  Mas não deu para chegar, planeio com –100m, não estava na hora de arriscar.  Pela segunda vez no dia a humilhação total, motor de novo.

O aeroporto de Juiz de Fora é muito bonito, o Aeroclube de avião tem um 1 Blanik que está quase totalmente reformado, plexi novo, etc.. Alguns quero queros, mas ninguém dando muita bola para o vôo a vela.  Uma pessoa muito simpática veio me ajudar, o Rodrigo, presidente do clube de aeromodelo.  Ele parou de voar há 10 anos de planador por causa do excesso de burocracia, mas ainda pretende voltar.  Na verdade tive a sorte que ele me viu da estrada, e notou um planador um pouco diferente do Blanik e KW-1s...  Plena segunda-feira o clube fechado, amarrei o DG ao lado do hangar principal.  O Infraero tentou expulsar o Rodrigo da pista... porque estava sem crachá.  O DAC (fiscalização) veio fiscalizar, e fui autuado porque estava sem a licença de rádio, no dia seguinte achei, mas como como não era original, fui autuado da mesma forma.  Enviei protesto ao DAC-RJ, estou aguardando resposta deles. 

15/04 – SERRA DO MAR - JUIZ DE FORA - PARATY 

A pousada que fiquei foi muito boa, fica ao lado de um parque e bairro afastado da cidade (ao lado do aeroporto) onde o pessoal da cidade tem suas chácaras, fiquei com vontade de morar por lá, ambiente excelente, parecia Campos do Jordão, na parte alta.

A esposa do Rodrigo, Mônica, me veio buscar apesar de eu dizer que não haveria necessidade.  Mas ela insistiu, ela também apaixonada por planadores queria conhecer o DG.  A família inteira era volovelista !!!   Novamente o Infraero, desta vez de forma mais deselegante, queria expulsar ela da pista, deu uma discussão danada ! Mas no final eu falei que precisava dela, pois necessitava de auxílio para levar o planador até a pista.  Se não fosse esta família me recebendo muito bem, teria tido uma péssima impressão de JF, graças a falta de tato da fiscalização do aeroporto e do Infraero. (absurdo). 

Após abastecer o DG, com 13 litros (restavam ainda 9) ainda dei uma volta no aeroclube.  As instalações são excelentes, com alojamento, salas, tudo realmente num padrão muito bom, pena que não temos algo similar em Jundiaí

Estava na hora, 11:00 e não pipocava nada, as 11:30 decolei, estava livre novamente da burocracia do aeroporto.  Com plano de vôo local, aproei inicialmente a fábrica da Mercedes Benz, o tempo estava azul, e quase pousei no páteo dela, fiquei a 200-300m em cima dela, e depois de um bom tempo subi. Estava tentando ir para o Norte, Barbacena para depois ir até S Lourenço que tem uma boa pista de asfalto.  O tempo não ajudava, as 12:30 estava pipocando para o SW, mas na minha proa nada, me arrastei de volta para a pista.  E fui atrás das nuvens.  Mudei meu destino: Ubatuba !   A rádio me avisou que eu havia preenchido vôo local, e eu pensei, “caramba o que acontece com eles !!!!! “, informei o novo destino, solicitou código transponder.  Eu informei que não seria possível (precisava conservar a bateria do planador), e a rádio reclamou, eu apenas repeti “transponder Inoperante”.  O dia estava interessante, uma linha de nuvens me levou até Resende, de onde vi os altos picos de Agulhas Negras e o parque Nacional de Itatiaia.  Chocante, lindo, indescritível.

Vagarosamente atravessei o vale do Paraíba com poucas térmicas , e certa dificuldade, fui no melhor planeio..Do outro lado o início das montanhas que culminam com a divisão para o mar.  Cheguei num paredão onde não conseguia passar, e lá fiquei, voei colina por 20 minutos e aos poucos subi, o vento estava fraco, mas o local era propício para disparo de térmicas.  Fiquei calculando se dava para pular o morro, mas fui na segurança, subi um pouco mais.  Este tipo de vôo nunca havia feito no Brasil, apenas nos Andes e na França. Após pular esta cadeia de montanhas, vi que haviam montanhas mais baixas, mas igualmente desafiantes, pois não há pouso fora.  Estava voando em cima da mata atlântica, uma represinha aqui, e outra casa perdida eram os únicos sinais da civilização.  Batalhei muito para passar esse pedaço todo, várias vezes pensei em ligar o motor, mas se não pegasse... seria ainda pior.  Com muita paciência levei mais de 1 hora para andar 30km, com um planador de 1:50....  Vi o pico do Frade, que estava acima das nuvens, e precisava de altura para não entrar nelas, pois outros picos poderiam estar escondidos embaixo.

Finalmente consegui superar a margem de segurança, visual é verdade, que eu achava que dava para planar até o mar, passando por cima das nuvens estratificadas a minha frente.

Tomei coragem e... fui, coração muito acelerado, ainda consegui umas fotos do pico do Frade, comigo ao lado, e nuvens abaixo, digna de programa de TV, sensação única, que tenho dificuldades de reproduzir por escrito.

Quando consegui ver através das nuvens, vi o litoral e ... Angra dos Reis !!!!! Quando olhei mais para baixo, uns prédios de concreto... Itaorna, local da nossa Usina Atômica, tive que desviar rapidinho, para não gerar confusão em área proibida.  Havia uma bruma, por isso a visibilidade não estava fantástica.  Mas eu estava super feliz, na proa de Paraty com 400m de reserva, estava tranqüilo.  Passando em cima de praias fantásticas, tive que passar pelo meio da baia pois minha reserva havia diminuído para 300m.  Novamente ficando tenso, pois com um planeio de 1:40 (anel em 0,5 ou 1) é difícil acreditar que vai dar para chegar, mas não havia alternativa, confiei no instrumento.  Um helicóptero me informou que havia segurança a noite, que a pista estava muito boa, que me deixou mais tranqüilizado.  Amigos, a aproximação em cima do mar, vendo a rústica cidadezinha de Paraty a minha frente novamente foi uma forte emoção.  Entrei na perna contra o vento a exatos 300m, o que deu tempo para bater algumas fotos para ilustrar este momento.

O terminalzinho de Paraty é muito simpático, construído pelo pessoal do Condomínio de Laranjeiras, que ajuda a prefeitura local a manter a pista cercada e policiada.  A pista deles virou um campo de golfe, e segundo o pessoal da pista no final de semana muitos helicópteros e aviões usam o aeródromo.  Há venda de querosene e AVGAS também , algo inédito até poucos anos atrás.  Pousou um Petrel vindo da Vale Eldorado, mas não tinha gasolina para continuar, e como AVGAS estava temporariamente em falta (hehe), ficaram em Parati, para voltar a Ubatuba no dia seguinte.

O piloto do helicóptero, admirou o DG, ele aprendera a voar de planador em Cachoeiro do Itapemirim (ES) uns 20-25 anos atrás e não tinha idéia dos planadores modernos.  Me levou a uma pousada no centro histórico da cidade que foi muito agradável.

Fotos 4 / Fotos 5

 

16/04 – 2500 COM MOTOR – PARATY – JUNDIAÍ 

Fui cedo para o aeroporto para ligar a chave geral (master) do planador, que permite a recarga das baterias através das placas de energia solar.  O planador continuava estaqueado junto a grama bem aparada na frente do terminal do aeroporto.  Fiquei lendo uma revista no terminal quando um King Air último modelo pousou, veio até o pátio, ficou 5 min com motor ligado e decolou novamente.  Estava testando se a pista operava bem com esta aeronave novinha em folha., deu vontade de esconder o DG....

Estava impaciente para decolar, as 11:40 apenas 2 fiapos no céu, decidi não perder mais tempo.  Do nível do mar a 2.500m com o motor foi a subida mais longa motorizada que já fiz.  Não havia turbulência, nada o ar estava muito calmo.  Quando finalmente recolhi o motor, estava na serra do mar, avistando as primeiras nuvens, antes do vale do Paraíba, mostrando que logo as térmicas viriam ao meu auxílio.  Ainda dei uma boa olhada para trás, despedida a Parati e ao formoso litoral carioca.  Posso dizer que após inúmeras aventuras de planador e avião, a visita a Parati foi uma grande emoção, recomendo a todos, mesmo de Ximango.   A época certa do ano para voar na região é outono mesmo, pois na primavera e verão os CBs pipocam com excesso de instabilidade.

Subi em algumas térmicas, no trecho planalto da serra do mar, aproando o vale do Paraíba, na direção Pindamonhangaba, não havia sequer um fiapo no ar, passava das 13:00... Fiz o planeio final para o outro lado do vale.  Realmente o ar estava novamente muito calmo, apesar do céu azul e sol.  Nos primeiros morrotes situado no início da Serra da Mantiqueira, comecei a sentir turbulência e comecei a sorrir “agora eu consigo subir @@!”.  Fiquei durante uns 30min rodando os morros com Urubus, a 300m de altura, não conseguia subir, apesar de ver lindo cumulus a menos de 5km, não tinha jeito.  Finalmente resolvi tentar a última cartada, planeio final para pista de asfalto de Pindamonhangaba, e nada... Baixei o trem, estava na final para pouso, resolvi ligar o motor.  Como ele pegou rápido, não pousei, devia estar a 30m ou menos, foi um bom exercício.  Subi a 600m, desliguei e comecei o vôo térmico, agarrando o primeiro cumulus da serra.  Cheguei um pouco mais baixo que

Subindo aos poucos, aproei o Pico do Gavião, que fica ao lado da estrada que vai para Campos do Jordão.  Cheguei um pouco mais baixo, mas as térmicas estavam funcionando.  Uma asa delta esta se preparando para decolar, e ficou me olhando, foi muito engraçado pois os dois deviam estar pensando “o que este cara está fazendo em plena quarta-feira ?”.  A asa decolou, afundou e nunca mais a vi.   O controle São José avisou que eu poderia aproar a represa de Brangança Paulista, mas que haviam dos jatos da Embraer efetuando testes na área reservada a eles.  Como estavam acima do FL200 (20.000 pés), não haveria problema algum.  O vôo não foi rápido, mas deu para andar bem, e aos poucos fui perdendo de vista o Vale do Paraíba.  Avistando Atibaia, atravessei outro buraco azul.  O APP-SP (Controle VFR SP) foi extremamente solícito, apenas solicitou que informasse em Atibaia, para prosseguir a Jundiaí.  Em Atibaia, peguei um rojão, subi até 1700m, fiquei brincando com alguns Paragliders que também estavam se divertindo muito.  Mais de ½ dúzia de Paragliders voando, fiquei um pouco mais próximo de 2, quando consegui tirar algumas fotos.

Planeio final direto para Jundiaí, vi as obras no aeroporto de Jundiaí, enormes máquinas fazendo terraplanagem ao lado do hangar do APP (Aeroclube Politécnico de Planadores), mudando de vez a paisagem do nosso clube.  Puchacz voando, o clube a todo vapor com os alunos voando de quarta-feira, ótimo !  Desmontei o planador ao som das niveladoras, que diferença das pacatas pistas que havia freqüentado nos últimos dias.  Realmente Jundiaí parece com SP, muito urbanizado, 3 aeronaves na perna do vento, etc...

 Posso dizer que esta viagem valeu a pena, espero poder repetir num futuro próximo esta viagem, pois descobri que mesmo próximo a nossa casa existem muitos vôos interessantes que podem ser feitos.  Muitas vezes estamos tão acostumados ao nosso ida e volta tradicional, que esquecemos das outras possibilidades de vôo.  Acabei de receber o boletim da APPA, Associação de Pilotos Proprietários de Aeronaves, justamente com a minha reclamação sobre a multa de Juiz de Fora, espero que o bom senso voltei as nossas autoridades fiscalizadoras.

Fotos Final

 

Thomas Milko

Maio/2002

 

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