relatos
Andes expedition 99
(por Thomas Milko)
 
Parte 2 - San Martin de Los Andes
 Os Vôos
    Após 14 horas extremamente bem dormidas, na Hosteria de Los Andes, totalmente invadida pelos brasileiros e alemães, comecei sentir-me como gente de novo. Alias este local acabou sendo o QG oficial, uma vez que o local encontrava-se praticamente vazio, extremamente aconchegante como costumam ser os hotéis de estação de esqui.
    Vamos montar o Nimbus, aos pouquinhos fomos encaixando todos os pedaços, sendo que incrivelmente não tive problemas de lenha de planador dentro da carreta (preciso avisar o Sr. Spindelberger, da Cobra sobre esta façanha). Passo seguinte era entender um pouco a rotina local do aeródromo e das imediações.
    Marcelo Martino, uma mistura de Pucci com Alberto (conforme definição do Maurício), fez o upload das pistas, pontos de virada e até mesmo locais de onda no meu Cambridge. Próximo passo, el piloto remolcador. Aqui cabe um aparte, o aeroclube de San Martin é tocado por duas pessoas, a incansável Silvia e Nono. Este ultimo foi o rebocador principal durante meus vôos em San Martin. Ele confessou estar bastante preocupado em rebocar o Nimbus, mesmo eu estando levíssimo, 590kg. Todos os planadores e aeronaves de pequeno porte decolavam da interseção, 1km de pista para cada lado... Eu levei o Nimbus até a Zebra no início da pista. O reboque inicial não foi aquela coisa magnifica, mas com os 160hp até que o PA-18 foi bem valente.
    A pista de San Martin, tem o comprimento de Congonhas, 2.500m x 45m, com balizamento (que nunca foi ligado), torre de controle (usada por nós como dormitório) e um lindo terminal, com bar lojas e tudo mais. Situado num amplo vale, não costuma Ter turbulência gerada pelos rotores de onda. Quase todos os dias tivemos vento bem alinhado com a pista, sem duvida afunilado pelo vale. Perto temos o "Pintado" , que são uns morrotes que permitem voar colina quase todos os dias, ideal para pendurar no início ou no final do dia. A partir desta formação, sempre pipocam térmicas. A distância de 4km, torna possível a qualquer planador voar colina neste local. Algumas montanhas a um raio de 10 a 15km são os disparadores de térmicas perto da pista. Onda é fácil de pegar, aliás como a pilota local mencionou, a onda que nos pega... O relevo local acaba gerando onda com muita frequência até mesmo em cima da pista. Não é necessário ir longe ...
    Voltando aos vôos no primeiro dia fiz mais um reconhecimento da região, ficando sempre com a pista no visual. No segundo dia, consegui pegar onda junto com o Marcelo que mostrou o caminho das pedras. Alias falando em pedras, voamos junto colina no Chapelco onde pegamos um pouco de turbulência, parecido com fogueira de cana de açúcar. No início estava muito desconfortável de voar pertíssimo da rocha, mas aos poucos fui me acalmando. Catapultados para cima pela colina, acabamos engatando na onda, com vento de 80/90km/h de frente, subindo como se fosse uma pipa empinada. Parado no ar, parecia que nada estava acontecendo, no entanto 1,50m/s para cima constantes. Este dia voei aproximadamente 6horas, subi até uns 3900m . Tudo em vôo local.
    Um outro dia de vôo subi na onda extamente na vertical da pista, encontrando o HK, Heinz e Cia, onde ficamos acima das nuvens. Apesar de não estar em Jundiaí, teve um jato decolando de Chapelco (aeroporto de S. Martin) com destino a B. Aires, que resolveu passar perto de nós, e passou mesmo. Estávamos acima das nuvens, e vi o jato fazendo curva em subida a não mais de 1km de distância em direção oposta. Este dia resolvi ir ao vulcão Lanin, vi o Stemme passando ao meu lado, e falei comigo mesmo, "a oportunidade de ir seguindo alguém experiente na montanha". Pilotado por Klaus Ohlmann, que foi o idealizador da ida a Argentina, com o objetivo de voar 3.000km. Ele foi me animando e fui seguindo ele por cima das nuvens pulando de uma onda para outra, algumas vezes alternando em térmicas desprendidas das montanhas abaixo. Uma paisagem completamente surrealista, aliás ele bateu muitas fotos do Nimbus, com o vulcão ao lado, picos nevados e nuvens mais baixas que nós. Este dia subi até 4200m, com visibilidade maior que 100km, visualizando até o Pacífico no lado do Chile. Outra imagem muito interessante foram todos os picos dos vulcões ao Norte, Osorno, Vila Rica e outros tantos. Ainda assim voei a maior parte do tempo no cone da pista (vantagem de asa grande).
    Teve um dia que resolvi cortar o cordão umbilical com a pista, fui navegar para o vulcão e depois para Aluminé, uma hora fiquei tipo a 800m agl, extremamente tenso... Estava em cima de uma pista de terra, que sabia que haveria possibilidade de pouso, mas mesmo assim, voando rasante em cima das montanhas, neste local arredondadas com um pouco de gramineas, tentando de todas as formas subir. Não conseguia, e disse comigo mesmo "se subir volto para San Martin imediatamente" nada, fiquei a 550 metros, desanimado fui para o meio do vale. Comecei a olhar com mais seriedade para a pista, e pimba um 3m/s no meio do azul. As 16:40 ainda havia muito dia. Mas depois do sufoco, resolvi ir voltando para Chapelco, uns 120km fora. Bordejando as montanhas foi um vôo tranquilo. Até mesmo consegui chegar no Pintando ao lado da pista, onde voei colina, para depois engatar na onda novamente, ao redor das 19:00. Onda muito fraca não conseguia passar de 2000m. As 19:30 o único que estava voando, fitava as inúmeras lenticulares se formando, com diversas alturas sugerindo diferentes sistemas de onda, mas não conseguia subir mais. Finalmente as 20:40 , com frio, desisti e fui para pouso. Aliás, todos os vôos sempre fui com no mínimo camiseta e moleton, as vezes uma blusa de também. Mesmo com aquecedor de pé, que aliás deram risada de mim quando comprei em Bayreuth...., não era suficiente. Comprei pantufas de pele de ovelha, com + 2 meias e o aquecedor, agora estava confortável.
    Pouso fora na região era complicado para não dizer impossível, florestas, montanhas, lagos e deserto. Nenhum campo cultivado, restavam as poucas pistas na região e as rodovias asfaltadas. Não acreditava porém na alternativa de sair ileso no pouso "rodoviário", apesar dos Argentinos afirmarem que vários pousos foram feitos sem dano algum no planador. De qualquer maneira isso acabou restringindo muito a vontade de navegar, realmente me senti como um piloto de primeira viagem saindo do cone pela primeira vez. Quando voei nos Alpes, em julho, praticamente sem experiência na montanha, não tive este sentimento. Uma vez que no sul da França além do maior número de pistas usadas, todos os campos não muito íngremes são cultivados, ou seja pequenos arados que talvez não sejam o ideal, mas melhor do que as rochas Argentinas. Esta parte do continente tem uma densidade populacional irrisória, no caso de pouso em pistas isoladas ou no meio do nada, com certeza daria uma boa propaganda para o telefone via satélite, se funcionar...
 
Vôo sobre o Lago Lacar
 
 

 

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