Relatos
Andes
expedition 99
(por Thomas Milko)
Parte
3 - San Martin de Los Andes
Vôos
e Conclusão
Após alguns dias de vôos, já estava mais a vontade
com a região, ou seja a topografia já não intimidava
tanto, lego engano.
Parafernália germânica. Os alemães não acreditam
na previsão meteorológica Argentina, trouxeram 2 meteorologistas
! Com qualificações acima de qualquer suspeita (um era professor
na Universidade, outro meteorologista militar, que ajuda o time alemão
durante os mundiais), vieram com seus Notebooks, links diretamente com
Alemanha, etc etc. Objetivos da expedição alemã, além
de tentar humilhar o resto do mundo com os recordes de distância,
de medir as fortes condições de vento em altitude na cordilheira
bem como as diferenças de temperatura, para também melhor
entender o fenômeno onda, para maiores detalhes acesse o site da
mountain wave (link no site Nimbus). Não preciso dizer que não
andaram acertando muito não, para satisfação da dona
da Hosteria que fazia a previsão muito melhor, Vilela você
conhece isso de algum lugar. Aliás os próprios Argentinos
acabam acessando a página do INPE para ver as fotos de satélite
e acessar outras informações meteorológicas.
O QG alemão montado no hotel foi interessante, carta ONC 1:1.000.000
americanas, com atualização tão antiga como no Brasil,
na parede desde o sul sul da Argentina até a região ao Norte
de Mendonza, a cada dia iam escrevendo algum detalhe adicional. Inclusive
comparavam com cartas Russas ! Com alguns detalhes melhores que a Americana.
Uma pena que são muito caras, a venda na Alemanha, e caracteres
cirílicos, um pouco difícil de entender. Diariamente faziam
download das informações meteorológicas, diretamente
da Alemanha, sobre a Argentina.
Apesar da previsão de onda, o dia amanhecera calmo, com pouquíssimo
vento. Alemães tristes por não poderem aproveitar a dinâmica,
eu fiquei contente já quer seria mais um dia de vôo como estou
acostumado. Começou a pipocar cedo para o lado Leste, ou seja no
deserto, um bom sinal. A rebocadora para variar estava um pouco atrasada,
mas chegou. Após uma decolagem meio devagar, estava muito quente
sem vento... O PA-18 160hp começou a subir aos pouquinhos. Desliguei,
engatei numa térmica de +4m/s, e fui para as nuvens literalmente.
O vento em altitude começou a aumentar, com vento de 40km/h de NE,
portanto inadequado para aproveitar a cordilheira, fui para o Sul em direção
de Bariloche. Foi um vôo rápido para chegar até lá.
Bariloche tem um bom tráfego comercial, por causa do turismo forte
na região. Fiquei escutando a fonia, todo mundo chama de Controle
Bari, para ficar mais fácil. Resolvi ir para cima do Nahuel Huapi,
o lago ao lado da cidade, estava a 2800m acima do solo, extremamente tranqüilo,
porém aos poucos fui perdendo altura. O lago frio realmente impedia
a formação de térmicas por um bom trecho, fiquei triste
porque queria ir até o Majestoso Cerro Tronador. O controle Bari
foi muito tranqüilo, somente perguntava de tempos em tempos minha
posição. Aproei o deserto novamente para tentar pegar alguma
coisa, vento de frente de 40-50km/h, custei a voltar . A 700m de altura
(estou de Nimbus 4 !) consegui um 0,5m/s ... Fiquei batalhando um bom tempo,
até conseguir subir na termica rasgada pelo vento. Aos poucos fui
batalhando pra subir, voltando pra San Martin. No través encontrei
o DG-500 com Maurício/Heinz, fomos juntos para o lado de Aluminé.
Tiramos algumas fotos em vôo, enfim foi o dia que voei 300 e poucos
quilômetros, único dia realmente cross country que fiz em
San Martin.
Uma escola para mim foi a maneira que eles tratam o oxigênio, como
é feito o handling, etc etc... Com uma "maquininha" que pesava uns
100kg, bombeávamos oxigênio das garrafas grandes para as pequenas,
para conseguir aproveitar melhor. Uma vez que o fornecimento de O2 vinha
a uma grande distância, de Neuquén a uns 400km de distância.
O Stemme tinha 3 sistemas de oxigênio a bordo, EDS, de emergência
fluxo constante e por demanda, que seria utilizado somente acima de 30.000
pés, o mesmo sistema utilizado no Tucano. E alguns turbohélices
da Embraer. Sem dúvida o melhor sistema, porém bem mais caro
que o EDS e mais "gastão" no uso de oxigênio vs. EDS que tem
o sistema de controle eletrônico. Porém acima dos 30k pés,
o EDS não é certificado... Aliás, acredito que em
Brasília, nos dias de base muito alta, vale a pena usar O2, se pensarmos
que Formosa fica a 1000m ASL, base a 3.500metros, significa 14.800 pés
, em San Martin acima de 12.000 pés asl eu ligava o O2 e usava,
alívio imediato, talvez parte do cansaço ou até mesmo
desorientação pelas térmicas azuis do planalto central
sejam em parte devido a falta de oxigênio, apenas uma idéia.
Aliás eu gostaria de agradecer ao Peter Volf, que cedeu sua garrafa
que foi bem utilizada. No Nimbus, eu instalei 3 sistemas de oxigênio.
O EDS (sistema eletrônico de controle de fluxo de oxigênio,
baseado na altura e na respiração, proporcionando grande
economia vs. os sistemas tradicionais), que era o principal ligado na garrafa
pequena. Sistema de backup , Nelson, com regulagem manual conforme a altura
(peça de plástico com uma bolinha dentro) ligado a garrafa
enorme que tenho no lugar do Motor. E finalmente o sistema de emergência
da EDS, que consiste numa garrafa pequena, com aproximadamente 20 min de
oxigênio constante para 1 pessoa. Quando for usar O2 não esqueça
de verificar qual o sistema utilizado, a aviação geral no
Brasil utiliza o sistema ASTM, americano. Por outro lado, os Europeus usam
o sistema métrico, atrelado as normas DIN . Resumindo, levei adaptador
para poder carregar a garrafa usando o sistema Europeu e também
para poder usar o sistema hospitalar, que novamente tem outro padrão.
Aliás porque decidi voltar alguns dias mais cedo ? Principalmente
porque não queria voar sozinho, um dia o Stemme simplesmente não
apareceu, ficamos super preocupados, as 9 da noite tentando acender o balizamento
da pista (que está todo instalado, mas nunca foi ligado). Telefonemas
para todos os lados, finalmente mais tarde recebemos a informação
que havia pousado em Bariloche. Esta é uma região inóspita,
sem um grupo voando o risco realmente aumenta, aí talvez funcionaria
bem o sistema de telefone via satélite, já que celular somente
funciona dentro das poucas cidades existentes. Com o DG500 Brasileiro e
o LS-7 de Marcelo Martino voltando, achei melhor me mandar também,
não sem um certo receio.
Mais detalhes, assinem a revista VA (Volovelismo Argentino) que está
publicando a tradução dos relatos germânicos.
Espero poder voltar em breve para os Andes, um local que exerce um grande
fascínio, e uma adrenalina bem acentuada... Com este relato espero
que mais Brasileiros se animem a levar seus planadores para o nosso vizinho
Sul Americano, e realmente aproveitar o que temos aqui pertinho de nós.
Sim, o planejamento tem que ser feito com alguma antecedência, mas
não é tão complicado, como diz o ditado "Let´s
do it" ou "venga venga !" .
Gostaria de agradecer ao Gustavo Barion (de São Carlos) que me aturou
durante estes dias, sempre tirando o orvalho do planador nas gélidas
manhãs de San Martin. Assim como Nono e Sílvia, do Aeroclube
de San Martin, e todos os outros amigos que ajudaram a fazer esta viagem
uma realidade.
Este ano vamos nos juntar ao Heinz / Karl e ir para o Nordeste ? Com um
número mínimo de planadores e um pouco de planejamento conseguimos
arrumar um rebocador.
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