"CAÍRAM OS 1000km NO BRASIL !!!!"
Parafraseando os argentinos, usei a expressão acima, hoje, 01-10-2002 decolei de Currais Novos, 4° maior cidade do Rio Grande do Norte, a 150 km SW de Natal.
Fiz o primeiro vôo acima de 1000km realizado no Brasil.
Mais precisamente o vôo teve extensão de 1059,6km de distância livre (ou aprox.1070km se for considerado com ponto de virada), terminando em Balsas (MA), com motor desligado as 8:25, pousei as 17:27 , ou seja praticamente 9 horas de vôo sem motor.
O planador voado foi um DG800B-KT, PP-XEZ monoplace (apenas 1 pessoa), de fabricação alemã.
Preparando
o vôo:
No dia anterior
havia decolado as 8:30 de Juazeiro, pronto para tentar os 1000km, porém o tempo
não estava bom para o lado do Maranhão e Tocantins (oeste).
Karl sugeriu eu tentar Posse, porém após 1h de vôo vi que o rumo era
muito ao sul. O vento que deve ser
um aliado num vôo destes estava totalmente de lado, desisti, pois não achava
que seria possível realizar a distância dos 1000km.
Fiquei meio chateado, pois estava pegando térmicas acima de 1m/s antes
das 9 da manhã com o planador bem pesado, cheio de lastro, 22l de gasolina no
tanque principal e mais 15l nas asas, fora bagagem.
Resolvi ir atrás do meu plano principal. Queria
ir o mais a leste possível, para aproveitar o vento constante que sempre vem do
leste (rumo 110°). Assim voaria a
maior parte do tempo no semi-árido Nordestino, adentrando pouco nas úmidas
terras do Maranhão, evitando Tocantins por completo.
Não sabia direito onde, passei por várias pistas, no guia de aeroportos
Currais Novos aparecia como pista de terra, um ponto negativo,já que muitas
delas ficam no meio da cidade ou são meio abandonadas.
Gostei da localização, relevo bem montanhoso ao redor ajudaria a
disparar as primeiras térmicas do dia. Para
minha surpresa, ao sobrevoar notei que era asfaltada.
Como ainda era cedo, resolvi subir numa térmica, que além de forte fez
milhares de sacos plásticos e pedaços de papel voarem alto.
Ainda nesta fase,
tentei visitar o Oceano Atlântico, aproei a costa, distante 150km.
Quando passei a marca dos 80km do mar, a base das nuvens começou a
descer sistematicamente, de 1800m para 1200m a 60km da costa.
Como o solo continuava hostil, e as nuvens rareando resolvi voltar para
Currais Novos.
O asfalto era
antigo, a pista foi asfaltada em 1987, com 22m de largura, confortável para os
18m de envergadura do DG800B. O
vigia diurno pediu da Prefeitura um vigia para a noite, que veio após confirmação
de uma gratificação minha. O
hotel Tungstênio resolveu meu sono, afinal havia voado 8h30, e tinha que estar
bem descansado para o dia seguinte. A cidade vivia da mineração de xilita que
era usada na confecção do filamento de lâmpadas.
Após a temível
corrida de moto-táxi (sem capacete), cheguei no aeroporto antes das 8:00. Céu
azul, bem ensolarado, com pequenos cumulus.
Limpei rapidamente o planador e as 8:15 decolei.
Subi até 830m, as 8:25 recolhi o motor.
O inicio do vôo foi difícil, térmicas de 1m/s, voei baixo, entre 450 e
900m agl (acima do solo). Sempre ia
para cima das pedras e pequenos morros, procurando locais com maiores
possibilidades de gatilhos térmicos.
Antes das 9:00
joguei 30litros de água fora pois estava a 450m rodando 0,5m/s.
A média de velocidade da primeira hora foi de 70km/h, com vento de cauda
de 18km/h ... Estava voando baixo
em cima de terreno ruim para pouso e céu azul.
Parte da decisão de usar a pista de Currais Novos foi o terreno
acidentado e as pistas próximas. Basicamente eu estava pulando do cone de uma pista para
outra, ficando pouco tempo sem alternativa de pouso.
Foram os momentos mais emocionantes, voei de encontro a pequenas serras
(200/300m), com a esperança de encontrar sustentação. Sempre encontrei já que a insolação estava forte, apenas não
tinha as nuvens para balizar.
A segunda hora foi
parecida mas já pegava térmicas mais fortes , perto de 2 m/s.
Estava me conformando que dia seria totalmente azul, não estava seguro
de conseguir os 1000km. Após 2h de vôo ainda faltavam 874km, assumindo que no
quilometro 1049 havia desligado o motor, havia
voado 175km nas 2 piores horas, tinha ainda 7h30min, tinha que voar média
de 120km/h para chegar antes das 17:59, por do sol no destino.
Nas primeiras 2
horas fiquei muito tempo girando fracas térmicas, principalmente perto de Caicó
e Souzas. Interessante que no dia
anterior, mesmo horário, havia pego térmicas mais fortes próximo a Juazeiro
do Norte.
Na terceira hora
tudo foi melhorando, mas não era ainda um dia forte. Olhava a média de velocidade da última hora voada, fiz
deste procedimento hábito durante todo o vôo.
Assim conseguia ver se iria chegar a Balsas. As 11:25 estava no través N de Juazeiro, justamente no vale
de Iguatu onde o Karl sempre me dizia para tomar cuidado pois as térmicas eram
mais fracas.
As primeiras nuvens
funcionaram bem, e ainda por cima conseguia avistar o horizonte (perto de Picos)
coalhado de cumulus, o que animava bastante. Tinha agora 744km a serem percorridos em 630min, ainda difícil.
Da quarta hora em
diante o tempo ficou muito bom, a base foi subindo até uns 2700m agl, cheguei
nas nuvens, tudo foi alegria, a média de velocidade foi aumentando rapidamente.
Perto de Picos consegui média de 175km/h durante 45 minutos !
Fechando cada hora com médias de 150 e 140km/h, fui tornando real a
possibilidade de chegar.
Conhecia o trajeto
até Picos, durante os vôos em circuito fechado realizados a partir de Juazeiro
do Norte, inclusive havia feito o triângulo de 752km a partir Juazeiro passando
por Picos e Crateús. Após Picos o
terreno era desconhecido. As pistas
foram rareando, e cada vez piores. Floriano
é a última pista decente, depois apenas pistas de terra com qualidade
duvidosa. Benedito (Uruçui) tem 2
pistas afastadas da cidade. As
16:15 estava praticamente no planeio final mas queria garantir a chegada, abaixo
cerrado fechado com o rio Balsas serpenteando. O dia estava acabando, estava desviando de 30-40° para ficar
alto e tranqüilo.
Em Balsas cheguei
com muita altura, tipo 900m, um jato chegava junto, perguntando se eu
necessitava que ele esperasse o meu pouso.
Orgulhosamente disse que ainda iria esticar mais 10km, ele não entendeu
nada, o que um louco estava fazendo voando de planador no meio do Maranhão e
ainda não queria pousar ... Vi ele
na final no momento que cruzava a vertical da pista. Na volta ainda escutei um Mitsubishi (bimotor grande)
pousando, estranhei todo esse movimento.
Após a chegada na
enorme pista de Balsas, fiquei sabendo que o José Sarney e outros políticos
haviam chegado. Pior que o planador
chamou muito mais atenção que o Citation último tipo parado ao lado.
A equipe do SBT veio me entrevistar, todo povo em volta do planador, o
stress normal de todos querendo apalpar o planador, e eu muito cansado.
O pessoal foi muito legal comigo, conseguiram um hangar, extensão elétrica
e o Fernando, que tem oficina de moto ao lado da pista, levou-me para o hotel.
A noite, fiquei
refletindo sobre o vôo no chuveiro, quando deu o blackout geral na cidade toda.
Saí p/ jantar com minha lanterna sempre a mão, acabei chegando na praça
de alimentação do moderníssimo hipermercado ao lado do hotel.
Meteorologia
O tempo estava
muito estável, com céu azul e o constante vento soprando do litoral, calculo
que tenha pego um vento médio de 17km/h de 110°,
pelo menos isso que o instrumento mostrou a maior parte do vôo.
Não houve superdesenvolvimento na região de Balsas, o que pode ocorrer
nesta época do ano. A base das
nuvens demorou para subir, por isso voei bastante tempo baixo baixo. A distância do mar me pareceu suficiente para não sofrer
influência da umidade do oceano, mas isso ainda poderia no futuro ser testado.
Para fazer este vôo,
tem que haver preparo físico, pois 9 horas dentro da pequena cabine e o sol
intenso acaba cansando um pouco. Como
eu já estava voando por 9 dias, em média 6 horas/dia, estava me recompondo
dormindo muito cedo, alguns dias as 21 já estava no profundo sono. Várias
vezes senti muito sono a bordo, sendo que nos dias anteriores havia
“pescado” algumas vezes, acordando com o planador “meio fora da proa”.
Encontrar alimentação
ideal também é importantíssimo, cada um tem sua fórmula, a minha foi
basicamente um café da manhã super reforçado, no planador um Powerbar e
biscoitos. Sempre levei muita água,
mas bebia pouco pois a operação de eliminar água é sempre meio complicada.
O local da
decolagem é o mais importante pois as 2 primeiras horas do vôo foram as mais
difíceis, sempre com os nervos a flor da pele, pois o relevo é terrível e
voei entre 350 a 700m acima do solo durante estas 2 horas.
Naquela região significa estar em permanente estado de alerta (sangue
frio), pois as possibilidades de pouso fora são remotas.
As poucas pistas que tinha no caminho, entravam e saíam do planeio pois
eu estava muito baixo.
Poucas vezes em
todos meus quase 12 anos de vôo à vela vi uma região com um tempo tão homogêneo
como esta região, entretanto dentro das pequenas micro-regiões existe grande
variação como buracos azuis, regiões que funcionam melhor, etc.
Explorei outras possibilidades como sair de Quixadá, onde a pista foi
recém asfaltada, porém teria que atravessar a região de Teresina, que pelo
mapa parece ser mais úmida.
A região oferece
muitas possibilidades, acredito que com os vôos a partir de Juazeiro do Norte,
foi dado o pontapé inicial. Mas
existem outras regiões a serem exploradas, e quem sabe, com possibilidades
melhores ainda de grandes vôos.
Que sirva de
inspiração para os colegas voarem muito, muito mais !
Thomas Milko
São Paulo, outubro
de 2002
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