Karl
P. Voetsch
San Martin de Los Andes, o novo Paraíso do Vôo a Vela
Às
vezes é difícil distinguir entre sonho e realidade. Justamente esta foi a
minha impressão num dos muitos belos vôos em San Martin de los Andes.
Estava
confortavelmente sentado no DG-500M, com três camadas de roupas, luvas, etc. e
o oxigênio ligado. Altitude 5800m MSL, subindo na onda com 2,4m/s, ground speed
3,2km/h conforme o GPS. Para frente, para trás, para o lado? Nem sabia! Eu
estava fascinado com a imagem do Vulcão Lanin (3780m), que parecia afundar
gradativamente à minha frente. Céu azul e visibilidade ilimitada. No sul, a
200km, o bloco impressionante do Tronador. Um pouco à direita, o elegante cone
do Osorno, com o Puntiaguda ao lado. À direita do Lanin, o Vilarica, bem baixo,
soltando uma pequena nuvem de fumaça. E ao oeste, bem distante, brilhava uma
estreita faixa dourada. Só podia ser o Oceano Pacífico, refletindo os raios do
sol baixo. Que vista maravilhosa e tranqüila!
Um
último olhar, rápido, do sul até o norte. Infelizmente já estava na hora de
sair da onda, descer rapidamente, e voltar para a nossa base, o aeroporto de
Chapelco, antes do pôr-do-sol.
Como
decidimos por San Martin de los Andes
Sempre
fui fascinado com as grandes altitudes, com as montanhas. Como alpinista, como
esquiador e como piloto de planador. O desejo, porém, de voar nas montanhas
altas, com exceção de alguns vôos esporádicos nos Alpes, sempre havia
permanecido um sonho. Até mesmo a compra e importação do meu PIK-20E, para o
Brasil, não resolveram o impasse. Obrigações profissionais me impediam de
realizar excursões de cinco a seis semanas, o mínimo necessário para viajar e
voar nos Andes. Continuei voando térmica nas planícies do Brasil, sempre
aproveitando qualquer oportunidade de vôo na colina.
A
situação finalmente mudou com a minha aposentadoria e a compra do DG-500M,
junto com o meu sócio Heinrich. De repente ficaram à disposição o tempo
necessário e a oportunidade de realizar excursões de 5 semanas e mais. Graças
ao entusiasmo dos amigos Heinrich, Rudi e Maurício, nós realizamos várias
excursões volovelísticas, super-interessantes, para o Nordeste do Brasil, nos
últimos quatro anos.
Em
conversas anteriores com Klaus Ohlmann foi combinado o nosso primeiro encontro
em San Martin, com o grupo alemão do Mountain Wave Project, em 1999.
Apesar do tempo desfavorável, fizemos uma série de bons vôos de exploração
do terreno e das condições meteorológicas. Todos nós ficamos encantados com
a beleza da paisagem e com o potencial fantástico de vôo em onda, nesta região.
Esta foi a primeira de duas viagens longas e cansativas até San Martin de los
Andes, 8200km de estrada cada uma.
Apesar
do custo, tempo e esforço necessários, nós repitimos a viagem em novembro de
2000 – um pleno sucesso. Ficou decidido que iríamos visitar San Martin de los
Andes novamente em novembro de 2001.
O
aeroporto de Chapelco é um aeroporto pequeno, a aproximadamente 18km da cidade.
Fica situado em um vale largo e comprido com uma pista excelente de 2500m e um
grande pátio. Os controladores de vôo são muito amigáveis e completamente
descomplicados. A convivência dos aviões comerciais com os planadores funciona
perfeitamente.
Em
dias "normais" o vento é de 20 knots, 240 graus, alinhado com a
pista. Isso facilita a decolagem e o pouso. A turbulência é razoável e a saída
é fácil. Várias vezes eu peguei o rotor logo depois da decolagem, em 300m,
2km além da cabeceira.
Um
reboque até 700m certamente resolve, e dá altura suficiente para chegar na
colina do Lolog. Uma vez lá, a entrada na onda, se houver vento suficiente, é
garantida. Ondas até 8000m no Chapelco não são incomuns. Dias com menos vento
permitem que você voe na colina do Lolog, ou no Cerro Chapelco. E, se você
tiver coragem, poderá ir na colina até o Lanin ou até El Bolson, 220km ao
sul!
Um
dia com vento calmo, ou vento leste, pode ser aproveitado para vôos na pampa
seca. No verão, vôos de térmica de 500 a 700km são possíveis em planadores
de média performance, como o DG-500M, Discus, LS-7, Jantar, etc.
Não
quero, neste relato, descrever as condições de vôo em onda, excepcionais, da
Cordilheira dos Andes. Na minha opinião, elas são absolutamente
insuperáveis, no mundo inteiro. Klaus Ohlmann provou com vários vôos
que aqui simplesmente é a terra dos recordes mundiais!
E
o aluno, o iniciante, o piloto médio, que não tem tantas ambições. O que ele
vai fazer? Para ele uma semana de vôos em San Martin também será inesquecível.
O “Aeroclub de los Andes” oferece vôos de instrução com um biplace Lark
IS-28 e um monoplace DG-200. Para os reboques, fica a disposição um Piper
PA-18 com 160hp. Sem correr riscos, pode-se voar (com ou sem instrutor) no Lolog,
no Cerro Chapelco, no Vulcão Lanin, à 55km de distancia, e permanecer sempre
dentro do cone do aeroporto.
San
Martin serve para todos
Além
dos vôos espetaculares, nós fizemos uma série de passeios maravilhosos de
carro. Desta forma, tivemos a oportunidade de conhecer boa parte do Parque
Lanin, as florestas magníficas, os vários lagos até a Vila Angostura, o
Nahuel Huapi e a estação de esqui do Cerro Chapelco. Ficou claro, que San
Martin realmente oferece opções interessantes para todos os gostos. É um
lugar para passar férias, mesmo que não sejam necessariamente dedicadas
exclusivamente ao vôo a vela.
Existem excursões organizadas, de carro, para pescar, passear, e para escalar
as montanhas respeitáveis (Lanin, Tronador, Osorno, etc.) da região. Há
passeios de barco, de cavalo, windsurf, e muito mais. Famílias, esposas e crianças
têm várias opções.
Existem
hotéis de todas as categorias, do mais simples ao mais luxuoso. Restaurantes
bons, também há de sobra. A cidade é pequena e limpa, com uma arquitetura de
estilo bonito e aconchegante. Existe toda infra-estrutura necessária. San
Martin de los Andes é um dos melhores lugares de eco-turismo que eu conheço na
America Latina.
Observações
para futuros visitantes de San Martin de los Andes
Além
de expor os lados positivos de San Martin de los Andes, antes de finalizar, não
quero deixar de fazer alguns comentários práticos e chamar atenção para
alguns ítens de segurança.
Os
preços, infelizmente, são elevados demais. Os responsáveis estão cientes do
problema. Espera-se que, em breve, sejam tomadas medidas adequadas.
Pilotos
estrangeiros precisam providenciar a “Autorizacion de Vuelo” da Fuerza Aerea
Argentina e uma regularização do brevet. O “Aeroclub de los Andes” dá
todo apoio para resolver estes obstáculos burocráticos.
Existem
dias com ventos bastante fortes em Chapelco e com turbulências que fazem o
reboque com o fraco Piper PA-18 muito arriscado. E, às vezes, o Nono (Enrique
Arcagni) ou a Silvia, com toda razão, se recusam a rebocar.
Pode
acontecer que, de repente, entre uma frente de chuva pesada, ou uma camada de
nuvens feche em baixo de você, e o acesso ao aeroporto fique impraticável. Às
vezes há velocidades de vento altíssimas (150km/h em 6000m). As turbulências
podem ser violentas. Seu planeio, para voltar até o aeroporto, com vento de
proa, e ainda na descendente, é igual o de um parapente (5:1).
As
opções de pouso fora são muito limitadas. Há poucas pistas de apoio. As
chances de resgatar um planador, mesmo bem pousado no deserto, são mínimas. A
melhor opção para pouso provavelmente são as rodovias, geralmente largas e
pouco frequentadas.
Portanto,
é imperativo que cada um voe dentro das suas habilidades e suas margens de
risco. Um pouco de cautela, especialmente para o voovelista inexperiente em
terreno montanhoso, e recomendável, o que certamente não reduzirá a aventura
inigualável de voar numa paisagem tão fantástica.
Abril
de 2001
Karl
Paul Voetsch, DG-500M