Relatos:  Ceará 2000

Excursões Volovelísticas ao Nordeste Brasileiro

Anos 1997, 98 e 2000

Karl Paul Voetsch

 O Brasil é um país enorme com uma grande variedade de condições topográficas, meteorológicas e climáticas. Nem todas as regiões são apropriadas para o vôo a vela, porém muitas áreas oferecem condições boas a excelentes. Enquanto certas áreas já foram bem exploradas, particularmente no Sul e Sudeste, existem regiões enormes sobre as quais praticamente nada se conhece a respeito das condições e possibilidades específicas do vôo a vela. Apesar de saber disso há muitos anos, a comunidade volovelística não fez nenhum esforço mencionável em ampliar os conhecimentos neste sentido.

 

Surge a idéia do Nordeste brasileiro

Nós queríamos mudar isso. Em 1996 e 97, meu sócio do DG-500M, Heinrich Heinz, e eu, tivemos longas discussões sobre o assunto. Assim, surgiu a idéia de explorar algumas dessas regiões interessantes nas próximas férias. A intenção era de dedicar 4 a 5 semanas ao projeto.

No começo de 1997, iniciamos a coleta de informações e dados com amigos do vôo a vela, da meteorologia e da aviação. Logo cedo, o Nordeste (Ceará, Piauí e  Pernambuco) chamou a nossa atenção, devido à descrição de condições fantásticas, nunca vistas no sul do Brasil. Térmicas de 8m/s, base de 5000m, igual à África do Sul, igual à Austrália.

Investigando um pouco mais a fundo, cheguei à conclusão de que as  informações eram muito vagas, e provavelmente, mais especulação e sonho do que qualquer outra coisa. O Heinrich, por outro lado, ficou muito mais entusiasmado com essas afirmações incríveis e sugeriu a instalação de equipamento de oxigênio. Concordei, mas fiquei pensando que se a metade de tudo isso fosse verdade, talvez uns 5m/s e 3000m de base, já estaria ótimo.

O que, na verdade, mais me atraia, era a perspectiva fantástica de sobrevoar pela primeira vez, nas várias etapas da viagem, a Serra da Canastra, a Chapada Diamantina, o Rio São Francisco, a Chapada do Araripe e muitas outras regiões maravilhosas deste lindo país.

Decidimos fazer uma tentativa.

 

Planejamento e preparações

Logo foi definido que Juazeiro do Norte seria a nossa futura base. Confiamos em uma infra-estrutura adequada bem como uma localização estrategicamente boa. A cidade de Picos, apesar de muitas recomendações, foi descartada, devido a  uma série de deficiências inaceitáveis. Sabemos hoje, que a escolha de Juazeiro do Norte foi ideal.

O período da viagem foi estipulado de meados de agosto até fins de setembro. Uma semana de ida, uma semana de volta e três semanas de vôos a partir da  nossa base em Juazeiro.

 

Convidamos dois companheiros de muitos anos, o Rudi Braun e o Arnold Pieper, que prontamente aceitaram. Após a mudança do Arnold Pieper para os EUA, logo depois da primeira viagem, o nosso amigo Mauricio Zendron, com muito entusiasmo, ocupou a vaga.

A idéia era de viajar levando a carreta, sempre com dois homens no planador, e dois no carro. A carreta era para transportar malas, ferramentas, os tanques de gasolina, etc., e em caso de tempo ruim ou pouso fora, o planador.

Escolhemos etapas "voáveis" e "dirigíveis" via Patos de Minas, Buritis, Barreiras e Jacobina. No total eram 2250km para o planador e 3300km para o carro. Foi difícil escolher trechos adequados. As distâncias diretas de 350 a 520km por dia geralmente não eram problemáticas para o planador. A dificuldade era com o carro, em estradas em condições, muitas vezes, catastróficas. Os tempos de viagem normalmente eram de oito a doze horas por dia.

Revisões completas do DG-500M, da carreta e do Pathfinder do Heinrich, antes da partida, eram imperativas. Nas semanas seguintes nós passamos horas e horas trabalhando no hangar em Jundiaí.

 

Metas e resultados

·        Voar o máximo possível, inclusive a distância toda até Juazeiro e a volta para Jundiaí, sempre com uso mínimo do motor.

·        Explorar as condições volovelísticas e meteorológicas do Ceará, Piauí e Pernambuco.

·        Localizar e registrar pontos de apoio, sejam campos ou pistas de pouso.

·        Quebrar alguns recordes brasileiros de distância e velocidade, acima de 500km.

Certamente, em primeiro lugar, nós queríamos voar o máximo possível. E isso, claro, com o uso mínimo do motor, inclusive nos traslados para Juazeiro e de volta. Felizmente o tempo, nas épocas escolhidas, sempre esteve relativamente bom. Em todas as três expedições que fizemos, fomos forçados apenas uma única vez a desmontar o planador, por causa de chuvas torrenciais, em Minas Gerais.

Não é a finalidade deste relato fazer uma descrição extensa de nossos maravilhosos vôos. Esta já foi feita numa outra ocasião. Este relato tem a finalidade de transmitir fatos práticos, informativos e úteis para futuros empreendimentos.

A primeira viagem revelou claramente, que a época mais favorável no Nordeste não é agosto/setembro, como havíamos pensado, e sim, mais tarde. Mudamos o começo da segunda viagem para fins de setembro. Fomos recompensados com tempo muito melhor, menos umidade e térmicas mais fortes.

No planejamento de vôos devem ser considerados dois fatores limitantes: Primeiro, pela proximidade do Equador, as horas aproveitáveis para os vôos são poucas. Nove horas, num dia bom, é o tempo máximo disponível. Segundo, praticamente todos os dias predomina o vento leste de 20 a 30km/h. Estas duas condições prejudicam bastante a ação do DG-500M em vôos longos, pois ele é um planador relativamente lento em comparação com as super-máquinas. Por outro lado, um fator positivo é a possibilidade de voar todos os dias. Não tivemos um único dia sem condições de voar pelo menos 300km. Nunca tivemos tempestades, nem chuvas pesadas.  

Juazeiro do Norte é um aeroporto excelente, com tráfego comercial, que é limitado a poucos vôos por dia. No fim do dia aparecem os ultraleves. Os três  controladores de vôo são extremamente amigáveis e descomplicados. Infelizmente ainda não há gasolina no aeroporto. Também não existe um avião equipado para reboques. Quem quer voar de planador, deve trazer o próprio avião de reboque, ou, muito melhor, um moto-planador.

Nos três anos de vôos, checamos e registramos muitas pistas, e as condições das mesmas. É difícil de acreditar, porém há pistas no mapa que não existem e há pistas maravilhosas de asfalto que não constam no mapa. No total, hoje nós conhecemos em torno de sessenta pistas de pouso, que podem servir como pontos de apoio.

Ficamos super-contentes com as atividades volovelísticas. Voamos todos os dias. Conseguimos alguns triângulos de 750 até 850km, triângulos FAI de 750km, ida/volta de 780km, distância prefixada de 910km e distância livre de 950km. Sem dúvida, os 1000km com o DG-500M são possíveis, e, certamente, seriam fáceis com planadores tipo Nimbus 3/4 e ASW-22. Quebramos aproximadamente 10 recordes brasileiros. Estabelecemos uma boa noção das áreas mais e menos favoráveis para vôos de navegação.

Não posso deixar de elogiar a espetacular performance e confiabilidade do nosso DG-500M. A habilidade de manobrar e taxear até a pista, alinhar e decolar sem a ajuda de terceiros, foi extremamente prática, pois a carreta sempre saía cedo, deixando os pilotos por conta própria na decolagem. A instalação de uma bateria auxiliar de 24Ah tornou o sistema do motor absolutamente confiável. Em nenhum caso tivemos problemas no acionamento do mesmo. A manutenção do Rotax 535 se limitou a troca de velas, mais nada. Até mesmo nosso sistema de ar-condicionado funcionou bem !

Sete horas e 530km por dia

Todas as três viagens, sem dúvida alguma, foram grandes aventuras.

Até agora tive pouco sucesso em animar outros volovelistas para acompanhar o nosso pequeno grupo. Certamente vale a pena arriscar algumas semanas de férias para experimentar o vôo em um terreno tão bom, longe do campo de casa.

Continuo fazendo propaganda.

Aqui alguns números finais, obtidos nos vôos da viagem do ano 2000, para tentar animar possíveis interessados: Em 32 dias voamos 231 horas e 17.000km. Isso é uma média acima de 7h por dia e 530km por vôo.

Dá para querer muito mais do que isso?

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Campinas, fevereiro de 2001                            

 

Karl Paul Voetsch

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