De
Jaciara(MT) a Formosa(GO) são aproximadamente 960km voando por cima das
chapadas e da rodovia que vai para Goiânia.
A rota direta é via Barra do Garça, onde o Rio Araguaia já tem uma
largura respeitável. Mas fazendo
os cálculos de possibilidades de pouso, decidi ir pela rota mais longa e melhor
apoiada.
De
Jaciara a Rondonópolis foi um tiro pequeno e fácil, um pouco depois comecei a
avistar os contrafortes da chapada que engloba Mineiros e Rio Verde, a cor
avermelhada da transição vale e planalto parece com a Chapada dos Guimarães.
Os sulcos formados pelos rios são dignos de exploração terrestre, e os
vales se abrindo aos poucos pela ação da erosão, aula de geologia ao vivo.
Realmente conhecemos muito pouco desta região.
O
dia foi meio difícil, com vento de frente constante de 30km/h, estava voando
cheio de água para melhor enfrentar o vento de frente.
O planador estava lotado, camiseta, pasta de dentes, e muita gasolina.
Passando Mineiros, que fica a beira da chapada, admirei a pista de
asfalto cheia de hangares, próxima a cidade.
Vi que meu destino original, Rio Verde, dificilmente seria alcançado, o
dia estava acabando. Então resolvi tentar chegar em Jataí, o pouso foi
tranqüilo na pista de 1.500m com balizamento e outra dúzia de hangares.
Muito bem recebido pelo pessoal que além de avião são entusiastas de
ultraleve. Enquanto tudo vai
bem nos ares, o Ricardo que estava levando meu carro e carreta, telefona dizendo
que o engate do carro estava quebrando e por isso ele teve que parar numa
fazenda onde ressoldaram tudo. Ele rodou apenas 200km no dia inteiro !!!
Fiquei
chateado por Ter voado menos de 400km, mas o vento implacável e as chuvas do
dia anterior dificultaram uma boa distância.
Por outro lado o visual foi muito bonito, com enorme plantações de soja
e o vale muito hostil antes de Mineiros, com os contornos de pedra.
JATAÍ – FORMOSA
Jataí
tem +-80.000 habitantes, próspera com camionetes novas circulando pela cidade,
além da faculdade local mostram o que a agricultura bem desenvolvida trás para
a cidade também. As 10:50 iniciei
a rolagem , apreensivo com o vento lateral de 30km , parece que as pistas teimam
em não serem construídas alinhadas com o vento.
O céu meio azul, consegui subir até 1.100m, que foi a base que
encontrei durante o início do vôo. O
vento sempre me jogando de volta, aos poucos fui progredindo em direção de Goiânia.
A média estava abaixo de 100km/h , conseqüência do vento de frente.
Nesta época o vento é predominante de NE, o que pude verificar
empiricamente em quase todos os vôos feitos no MT.
Preparei
o vôo pois iria atravessar a TMA Anápolis e Brasília, cheia de
detalhes e zonas restritas, principalmente Anápolis.
Com dificuldade de contatar Centro Brasília, consegui falar com o
controle a 30milhas de Goiânia. O tempo já estava estourado com térmicas fortes, acima de
3m/s (eu estava cheio de água). O
relevo a 80-100km de Goiânia é cheio de vales e pedras, ou seja sem as opções
dos arados da chapada Jatai-Rio Verde.
Passei
por Goiânia, avistando vários aeroportos pequenos, a cidade é grande com
muitos prédios e até periferia, que eu pensava ser restrito as cidade do
Sudeste. O Controle pediu para
manter no mínimo FL065 por 8 milhas, eu disse que dependia das térmicas, não
podia garantir, 1 minuto após esta
afirmação subi ao nível 095 com uma térmica de 4m/s , o que deixou bastante
folga para o jato da VASP em aproximação para o Sta. Genoveva.
O
controle pediu para eu manter prova mais a Este, para evitar Anápolis, onde
encontrei a pior banana do dia, fiquei a 300m acima do solo, e custou a subir.
O terreno nesta região sobe para 1000m acima do nível de mar, ou seja,
bem alto. Após realizar evoluções
em círculo, conforme definição do controle, cheguei a base, 1800m acima do
solo. Próximo questionamento foi,
como chegarei em Formosa, o APP Brasília autoriza-me sobrevoar a cidade ???
A resposta foi bem negativa, dizendo que se eu adentrasse a TMA BSB,
seria reportado.
Após
a mudança para o controle BSB, recebi uma aula do controlador explicando que
uma aeronave que não mantém proa exata, altitude e velocidade constante não
pode entre em espaço aéreo classe C. Apenas
informei que vôo na TMA SP sem maiores problemas, e que contornaria a CTR Brasília
se necessário. Resultado foi que
dei a volta na CTR, sempre me colocando a disposição do controle para qualquer
desvio solicitado. Os controladores
foram muito bacanas, acabei passando a cerca de 25milhas do aeroporto
internacional. O visual da
esplanada dos ministérios e congresso nacional foram chocantes, consegui
visualizar o conceito das asas de Niemeyer.
Desviei
um pouco mais para o setor W onde grandes cumulus sinalizavam interessantes
possibilidade de ascensão. No
limite da TMA BSB o controle informou que estava entrando na região com um
Notam para asa delta, parapente e planadores, repetiu isso 4 vezes, parecendo
que eu estava entrando na terra, uóps, ares de ninguém.
Desliguei o transponder, já que a bateria estava mostrando 1.8volts, e
na terra de ninguém para que este equipamento ? Entrei no no planeio com boa velocidade, joguei água fora e
pousei atrás do JF, twin astir do Aeroclube de Planadores do Planalto Central.
Seis horas e quinze minutos para voar 535km aparentemente é fácil, porém
voei pelo menos 100 km a mais por causa do vento de frente.
Estava feliz, mas pensei com meus botões: “O ideal é decolar de
Formosa e, com vento de cauda, realizar o vôo no sentido inverso” .