Relatos: Jaciara - Formosa

 09/2001

Thomas Milkó

 

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JACIARA - JATAÍ 

De Jaciara(MT) a Formosa(GO) são aproximadamente 960km voando por cima das chapadas e da rodovia que vai para Goiânia.  A rota direta é via Barra do Garça, onde o Rio Araguaia já tem uma largura respeitável.  Mas fazendo os cálculos de possibilidades de pouso, decidi ir pela rota mais longa e melhor apoiada.  

De Jaciara a Rondonópolis foi um tiro pequeno e fácil, um pouco depois comecei a avistar os contrafortes da chapada que engloba Mineiros e Rio Verde, a cor avermelhada da transição vale e planalto parece com a Chapada dos Guimarães.  Os sulcos formados pelos rios são dignos de exploração terrestre, e os vales se abrindo aos poucos pela ação da erosão, aula de geologia ao vivo.  Realmente conhecemos muito pouco desta região. 

O dia foi meio difícil, com vento de frente constante de 30km/h, estava voando cheio de água para melhor enfrentar o vento de frente.   O planador estava lotado, camiseta, pasta de dentes, e muita gasolina.   Passando Mineiros, que fica a beira da chapada, admirei a pista de asfalto cheia de hangares, próxima a cidade.  Vi que meu destino original, Rio Verde, dificilmente seria alcançado, o dia estava acabando.   Então resolvi tentar chegar em Jataí, o pouso foi tranqüilo na pista de 1.500m com balizamento e outra dúzia de hangares.   Muito bem recebido pelo pessoal que além de avião são entusiastas de ultraleve.   Enquanto tudo vai bem nos ares, o Ricardo que estava levando meu carro e carreta, telefona dizendo que o engate do carro estava quebrando e por isso ele teve que parar numa fazenda onde ressoldaram tudo.  Ele rodou apenas 200km no dia inteiro !!!

Fiquei chateado por Ter voado menos de 400km, mas o vento implacável e as chuvas do dia anterior dificultaram uma boa distância.  Por outro lado o visual foi muito bonito, com enorme plantações de soja e o vale muito hostil antes de Mineiros, com os contornos de pedra.

 JATAÍ – FORMOSA

 Jataí tem +-80.000 habitantes, próspera com camionetes novas circulando pela cidade, além da faculdade local mostram o que a agricultura bem desenvolvida trás para a cidade também.  As 10:50 iniciei a rolagem , apreensivo com o vento lateral de 30km , parece que as pistas teimam em não serem construídas alinhadas com o vento.  O céu meio azul, consegui subir até 1.100m, que foi a base que encontrei durante o início do vôo.  O vento sempre me jogando de volta, aos poucos fui progredindo em direção de Goiânia.  A média estava abaixo de 100km/h , conseqüência do vento de frente.  Nesta época o vento é predominante de NE, o que pude verificar empiricamente em quase todos os vôos feitos no MT. 

Preparei  o vôo pois iria atravessar a TMA Anápolis e Brasília, cheia de detalhes e zonas restritas, principalmente Anápolis.  Com dificuldade de contatar Centro Brasília, consegui falar com o controle a 30milhas de Goiânia.  O tempo já estava estourado com térmicas fortes, acima de 3m/s (eu estava cheio de água).  O relevo a 80-100km de Goiânia é cheio de vales e pedras, ou seja sem as opções dos arados da chapada Jatai-Rio Verde. 

Passei por Goiânia, avistando vários aeroportos pequenos, a cidade é grande com muitos prédios e até periferia, que eu pensava ser restrito as cidade do Sudeste.  O Controle pediu para manter no mínimo FL065 por 8 milhas, eu disse que dependia das térmicas, não podia garantir,  1 minuto após esta afirmação subi ao nível 095 com uma térmica de 4m/s , o que deixou bastante folga para o jato da VASP em aproximação para o Sta. Genoveva. 

O controle pediu para eu manter prova mais a Este, para evitar Anápolis, onde encontrei a pior banana do dia, fiquei a 300m acima do solo, e custou a subir.  O terreno nesta região sobe para 1000m acima do nível de mar, ou seja, bem alto.  Após realizar evoluções em círculo, conforme definição do controle, cheguei a base, 1800m acima do solo.  Próximo questionamento foi, como chegarei em Formosa, o APP Brasília autoriza-me sobrevoar a cidade ???  A resposta foi bem negativa, dizendo que se eu adentrasse a TMA BSB, seria reportado. 

Após a mudança para o controle BSB, recebi uma aula do controlador explicando que uma aeronave que não mantém proa exata, altitude e velocidade constante não pode entre em espaço aéreo classe C.  Apenas informei que vôo na TMA SP sem maiores problemas, e que contornaria a CTR Brasília se necessário.  Resultado foi que dei a volta na CTR, sempre me colocando a disposição do controle para qualquer desvio solicitado.  Os controladores foram muito bacanas, acabei passando a cerca de 25milhas do aeroporto internacional.  O visual da esplanada dos ministérios e congresso nacional foram chocantes, consegui visualizar o conceito das asas de Niemeyer.

Desviei um pouco mais para o setor W onde grandes cumulus sinalizavam interessantes possibilidade de ascensão.  No limite da TMA BSB o controle informou que estava entrando na região com um Notam para asa delta, parapente e planadores, repetiu isso 4 vezes, parecendo que eu estava entrando na terra, uóps, ares de ninguém.   Desliguei o transponder, já que a bateria estava mostrando 1.8volts, e na terra de ninguém para que este equipamento ?  Entrei no no planeio com boa velocidade, joguei água fora e pousei atrás do JF, twin astir do Aeroclube de Planadores do Planalto Central.   Seis horas e quinze minutos para voar 535km aparentemente é fácil, porém voei pelo menos 100 km a mais por causa do vento de frente.  Estava feliz, mas pensei com meus botões: “O ideal é decolar de Formosa e, com vento de cauda, realizar o vôo no sentido inverso” .

 

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