De Padre Cícero ao Rio Tocantins:
O quadro enorme com a imagem do Padre Cícero
recebe o visitante na frente do aeroporto de Juazeiro do Norte. Padre Cícero,
herói e santo da cidade! Ele cuidou dos pobres há um século atrás. E há várias
décadas ele alimenta o comércio da região atraindo milhares de romeiros que
gastam o último centavo na cidade.
A monstruosa figura do Grande Padre reside no
topo do morro ao norte da cidade com uma maravilhosa vista sobre Juazeiro do
Norte, Krato, Barbalha e a Chapada de Araripe. E desde 1997 ele, com a pequena
colina leste, também ajuda os volovelistas que largam precipitadamente para
os vôos de navegação sobre o Ceará, Piauí e Pernambuco.
Nossa terceira viagem para o Nordeste foi um
pleno sucesso. 230 horas voadas em 32 dias, o que significa um tempo médio
acima de sete horas por vôo. Fizemos, sem
dúvida, muitos vôos bons e bonitos. Apesar disso, o grupo ficou um pouco desanimado. Em dez dias, oito vôos foram frustrados na
segunda perna e não completados por causa do vento muito forte do leste.
Eu senti que era necessária alguma idéia nova
além dos vôos em triângulo e de ida e volta. Porque não sair com vento de
cauda, longe, sobre terreno ainda desconhecido por nós, rumo oeste, e pousar
no fim do dia a 1000km de distância de Juazeiro do Norte? Feita a proposta,
meus três companheiros prontamente concordaram com a idéia.
Com a ajuda do “Copiloto” Rudi, elaboramos o
plano: Largar bem cedo, 15km ao leste de Juazeiro do Norte em Missão Velha,
voar até Carolina, MA (913km), e esticar, se fosse possível, até Araguaína
para completar o primeiro vôo de 1000km no Brasil.
Às seis horas, cedo no dia seguinte – vento
calmo, céu claro, temperatura fresca, umidade baixa. E a notícia de
tempestades pesadas no dia anterior no Maranhão. Será que hoje seria o dia
ideal para voar um triângulo FAI de 900km ou ida/volta perto da
nossa base em Juazeiro? De repente eu fiquei com muitas dúvidas.
Felizmente o vento acordou na hora que nós
chegamos no aeroporto e aumentou para 25km/h no solo. Preparamos rapidamente o
planador. Bateria carregada,
Zander FDR, declaração de vôo, bebida, dinheiro, estacas, corda, cachimbo
do Rudi, escova de dente e mil outras coisas, conforme o check-list.
Decolamos pontualmente às 8:30h com vento leste
de 30km/h e subimos com motor até a pequena cidade de Missão Velha, o nosso
ponto de largada. Chegamos lá em poucos minutos. Viramos o nariz para o oeste
e fomos embora. Sem muita perda de altura pegamos a primeira térmica boa no
km 32. Durante a primeira hora de
vôo, nós ficamos entre 900 e 1300m, sempre ajudados pelo vento forte de
40km/h. O km 200 nos surpreendeu com uma bela estrada de nuvens que permitiu
um vôo com "ground speed" de 200km/h num trecho de quase 40km.
Chegamos em Picos (km 263) com uma média de 117km/h, minha melhor média
atingida em muitos vôos até este ponto.
A continuação do vôo ficou mais complicada
devido ao terreno baixo e úmido depois de Oeiras (km333). Deslizamos até
900m várias vezes e rodamos térmicas fracas de 1-2m/s. A melhora rápida e o
aumento da base para 2300m, comum nesta hora do dia, não aconteceram. Apesar
da média bem acima de 100km/h até este ponto, fiquei preocupado com a
continuação do vôo. Continuamos nos arrastando até às 12:30h. De repente,
a surpresa aconteceu. Pegamos uma térmica forte que nos levou a 2100m. Fiquei
aliviado. Porém, demorou outros 40 minutos para novamente atingirmos esta
altura. E aqui começou o dia! Rodamos várias térmicas de 3 até 5m/s
integrados e a nossa média nas primeiras 6 horas voadas aumentou para
125km/h. Que bom!
Agora nós passamos uns 30km ao sul da grande
represa de Guadalupe. A formação das nuvens foi extremamente rápida. Torres
enormes e brancas se formaram de todos os lados. Dentro de muito pouco tempo,
o caminho pela frente escureceu. Algumas chuvas à distância.
No km 705 a situação mudou completamente. Em
poucos minutos estávamos no azul. O solo, verde e úmido. Ficamos em 1100m,
novamente rodando térmiquinhas de 0,8-1,5m/s. A última nuvem no km 870
forneceu 1,5m/s até 2400m. Mergulhamos no mar de nebulosidade, umidade, verde
e calor do Rio Tocantins. A visibilidade com o sol no oeste se tornou muito
ruim. Com ajuda do vento de cauda de 20km/h deslizamos até o aeroporto de
Carolina. Passamos em 1600m. Embaixo, maravilhosas rochas e o rio enorme, tudo
verde e úmido. Vôo silencioso. Ar morto. Continuamos rumo Araguaína, 90km
mais distante, para completar os 1000km. Faltavam 250m de altutra para chegar,
com o melhor planeio e vento de cauda quase adormecido. Meu co-piloto Rudi
quis animar: "Claro que nós vamos pegar alguma coisa de 0,5m/s ou um
zero e rodar até lá!" Sabia que não ia acontecer.
No km 949, em seguros 700m, liguei o confiável
ROTAX do DG. Pegou na hora. Voltamos para Carolina e pousamos. A recepção
dos dois rádio operadores foi calorosa. Entendo. Eles são os donos de uma
pista bonita de 2000m, têm equipamento de rádio, meteorologia, computadores,
tudo super moderno. São ponto de apoio da VARIG nos vôos Belém-Brasília. Só
que a VARIG não vém! O único tráfego são três malotes de Imperatriz por
semana. Imaginem a alegria deles ao receber um planador!
Ficamos no hotel número um da cidade - aquele
que tem um telefone, chuveiro elétrico e ventiladores nos quartos.
Os dois dias seguintes não foram fáçeis. Uma
luta de duas etapas de 480km cada uma, com vento de proa forte. E uma série
de outras aventuras. Mas isso é uma história completamente diferente.
Karl Paul Voetsch, Campinas, Jan. 2001