Relato do Campeonato Mundial de 2001
Mafikeng - África do Sul

por Alberto Kunath
III Colocado na Classe Aberta
Mundial 2001 Mafikeng – África do Sul
Confesso que fiquei emocionado ao ser escolhido para participar do campeonato mundial de planadores em Mafikeng.
Quem primeiro me disse “Kunath, você vai participar do campeonato mundial” foi o sr. Peter Volf em Bebedouro no final do campeonato brasileiro em 1999. Ele disse que as condições de tempo são parecidas e que eu, como campeão brasileiro tinha a obrigação de ir! Neste ano nasceu o meu filho Stephan que tinha 2 meses de idade. Eu respondi: Sr. Peter, vamos ver...
Em 2000, ele voltou à carga, também depois do campeonato brasileiro. Neste ano eu fiz uma grande aquisição de um dos nossos concorrentes o que significa um grande investimento para a nossa empresa, e além disto comprei o TM. Eu sabia que nunca poderia ir pelos meus próprios meios, ou seja, pagando do meu bolso, pois uma participação em um mundial custa entre US$ 15000,00 a US$ 20000,00 e não tem sentido se gastar este dinheiro quando você e sua família estão lutando para aumentar o seu negócio... Então eu disse ao sr. Peter: Peter, eu só poderei ir se for patrocinado por alguém e se meus negócios andarem razoavelmente bem. E tem mais, com uma empresa em expansão, um filho pequeno e dedicando meu tempo livre para treinar ( eu participei de 3 campeonatos no Brasil em 2001) não terei tempo para buscar patrocinadores. Non tem prroblema, eu vou conseguirrr verba com ministrro junto com brrrigadeirro! Para encurtar a história, a verba saiu e viabilizou nossa ida à Africa!!
Acreditando na palavra do Peter, fiz um planejamento para participar do pré nacional em Bebedouro, do pré nacional de Formosa e do nacional em Bebedouro. Após estes campeonatos eu me senti relativamente bem treinado, dentro das minhas possibilidades, para participar do mundial.
O final do ano foi muito difícil para a indústria brasileira e depois do campeonato nacional, eu fiz apenas um vôo (ida e volta a Franca saindo de Jundiaí, que por pouco não acaba em um arado, mas acabou com um pouso em Mogi Mirim) Embarquei o TM em Santos no dia 10/11 e quando dei por mim, estava sentado no Jumbo da South African rumo a Johannesburg!!!
Cheguei a Durban por volta das 12:00 do dia 7/12 e às 18:00 já estávamos a caminho de Mafikeng, onde chegamos na noite do dia 8/12
A infra-estrutura era digna de um mundial, com hangares para abrigar todos os 71 planadores inscritos, um outro hangar enorme utilizado para o Briefing e as festas de abertura e encerramento, um terminal de passageiros enorme, salas individuais para cada equipe, conexão com a internet, aliás, impressionante como a internet ajudou a manter a todos informados, e atualizados, possibilitando um acompanhamento e uma torcida muito forte!!!
O clima deste mundial era meio frio entre os competidores... Um dia tive que quebrar o pau com um japonês que queria que eu tirasse o TM do Hangar. E você sabe que não é fácil me tirar do sério... Nos dois dias subseqüentes choveu tanto que me lembrei de Campo Mourão em 1997! Mas dois dias depois o tempo começou a melhorar, graças a Deus!!
Como não havia participado do pré-mundial, aproveitei para me adaptar com a região durante o período de treinos. A duras penas em alguns dias... Lembro me de um dia onde nos passaram uma prova de área, com duas áreas. No caminho da primeira para a segunda área, entrou uma cobertura de nuvens altas que matou as térmicas que não passavam de 350-400 metros. Andei uns 50 km entre 150-200 metros e 300 metros de arado em arado, pensando: não posso pousar a 150 km de Mafikeng no primeiro dia de treino! Tenho que chegar mais perto de casa! Depois consegui chegar um pouco mais perto e num arado, a térmica varou a inversão, me levando a 1500 metros, altura suficiente para chegar em casa! Depois percebi que ninguém havia feito o percurso, e o pessoal da pontuação nem se deu o trabalho de contar os pontos... Em outro dia de treino, errei a largada e fui penalizado... Teria ficado em 6 lugar mas com os 150 ptos de penalização fiquei em 11.
Finalmente o período de treinos havia acabado e eu feito várias besteiras, mas estava bem adaptado ao TM, à região e às regras locais tipo largada múltipla, altura máxima para largada, etc... No dia da abertura, um tempo magnífico, mas não pudemos voar, pois havia um show aéreo. Aproveitei para dormir e ler um pouco.
Vencer a primeira prova, depois de um pouso fora, foi uma agradável surpresa, porém me deixou com o “fardo” de estar em primeiro lugar com mais 13 dias possíveis de vôo. Para lidar com isto, mentalizei que todo dia era um novo dia e que o resultado anterior não interessava. Isto me ajudou a recuperar posições no final do campeonato. Eu tentei voar cada prova como se fosse única.
O tempo foi muito variado com dias marginais, e outros muito fortes, dias “azuis” e dias com tempestades, o que mostra que num mundial, temos que estar acostumados a voar com qualquer condição. O vento normalmente soprava de norte noroeste com 25 a 30 kmh, e a prova era marcada para sul sudeste, onde o tempo era nitidamente melhor do que em Mafikeng, os retornos contra vento e no final do dia eram complicados e alguns pilotos pousaram perto da pista, por não conseguirem chegar.
Eu fui mal nos dias azuis, pois não competi com este tipo de tempo desde Formosa 1998... e estava voando sozinho contra os franceses, ingleses, alemães, americanos, sul africanos, todos com 2 planadores inscritos e voando em equipe, particularmente nos dias azuis.
O fato de voarmos todos com planadores semelhantes e não como aqui, vários planadores diferentes com handicap, foi outra grande diferença que eu notei:
Há uma forte tendência em se voar em bandões, com 10 a 15 planadores fazendo mais ou menos o mesmo caminho. Interessante como às vezes todos voam mais devagar para alguém perder a paciência e ir para frente, mostrando o caminho! Poucas vezes eu voei no bandão, pois quando discordava do que eles estavam fazendo, seguia meu próprio caminho.
Algumas vezes percebi que um competidor me deixava passar para se orientar pelo caminho que eu fazia, desviando das descendentes e aproveitando as ascendentes que eu pegava. Assim, o Holger Karow me tirou 10 minutos no final de uma prova em que voamos juntos 85% do percurso. No penúltimo dia de provas, a previsão era de CBs! Depois de passar a primeira área, encontrei uma linha de CBs no caminho do segundo ponto, passei na frente dela e valeu a pena! Subi com 5 metros até a base e andei sem rodar por uns 50 km. Na volta, foi assustador... passar embaixo de um CB despejando raios para todo lado, com um planador de fibra de carbono não é muito recomendável... Saindo do CB peguei uma descendente de 5,5 metros que me levou em instantes a 1200 metros quando entrei na cunha e subi com 3 metros voando reto, até 1800 metros. No final do vôo, saí com anel em 3, e outro CB estava entrando em Mafikeng! Resultado: não conseguia descer... quando estava com 600 metros de segurança e anel em 4, a 200kmh e subindo 2 metros, abri o freio e consegui descer!
Resultado do dia... primeiro lugar na prova e terceiro geral! Que acabou sendo o resultado final do campeonato, pois no último dia a prova foi cancelada...
Eu me dei conta, realmente, da minha colocação, quando subi ao pódio, e posso dizer que receber o premio de terceiro lugar, sentindo a bandeira brasileira, movida pela brisa, roçar em minhas costas, como para me lembrar “você é um Brasileiro e é o terceiro lugar no campeonato mundial de vôo a vela” foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida!
Assim acabou o mundial, e o ano de 2001, um ano que me deixará saudades pelos ótimos vôos que tive a oportunidade de realizar... No mundial eu pude aproveitar as excelentes condições meteorológicas da África do Sul, lugar que eu recomendo àqueles que querem voar num país diferente com uma boa infraestrutura de pousos fora, planadores para alugar, etc., e aprender muito com os outros pilotos competidores.
Fevereiro
2002