Um
Vôo Surpreendente em San Martin de los Andes
Karl P. Voetsch
"Que
droga! Já é sábado de novo! O tempo passa, e, de novo, nada de vento, nada
de ondas! Não viajei 8000km para fazer vôozinhos de térmica. Isso nós
fazemos de sobra em Rio Claro!"
Este
foi meu desabafo no café da manhã, na Hosteria de los Andes, o confortável
alojamento dos volovelistas estrangeiros em San Martin. "Bem, poderíamos
fazer um pequeno passeio de carro, para conhecer a pista do Lago Hermoso",
sugeriu o Heinrich. Esta pista, 35km de nossa base Chapelco, é a última
possibilidade de pouso antes de Bariloche. Ela é um ponto de apoio importantíssimo,
pois os próximos 75km até Bariloche somente consistem de rochas, morros,
muita água e florestas densas.
"E
eu não viajei tantas horas de carro, até aqui, para fazer passeio de
carro", foi a opinião do Rudi. Conclusão da conversa: Claro, vamos
voar! E adiar o passeio até o próximo dia de chuva.
Era
o meu dia junto com o Rudi. Sem muita atenção e sem muita pressa, nós
juntamos as nossas coisas, pára-quedas, Zander (computador de vôo com GPS
acoplado), mapa, óculos, etc., e certamente nada de roupas quentes, num dia
sem vento como aquele. Rudi, Heinrich e eu, todos a bordo da confiável
Pathfinder, fomos embora rumo a Chapelco.
São
aproximadamente 15km de estrada boa até o aeroporto Chapelco, um aeroporto
pequeno, novo e aconchegante, situado em um vale largo e comprido com uma
pista excelente de 2500m e um grande pátio. Os controladores de vôo são
muito amigáveis e completamente descomplicados. A convivência dos aviões
comerciais com os planadores funciona perfeitamente. E para facilitar mais
ainda, o vento é 20 "nudos", 240 "grados" com raras exceções.
E
era dia de uma destas exceções. Vento de 5 "nudos", que significa
vento insuficiente para voar colina, nem pensar em onda. Sem grande esperança
de fazer um bom vôo, e sem nenhuma pressa, levamos o DG-500M até o taxiway.
Para minha surpresa, na bolsa do para-quedas, apareceram capuz de
fleece, um casaco quente e mais algumas outras coisas "desnecessárias",
além das "manzanas" e da garrafa de água. "Rudi, por favor,
jogue tudo lá atrás de você no compartimento. Só de camiseta hoje
certamente vai dar. Não quero fazer outro vôo numa sauna, igual ao da
quinta-feira passada". "Claro, também não vou levar os meus
pantufos de ovelha, só vou de jeans", comentou o Rudi.
Decolamos,
às 12:45hs, com o confiável motor Rotax-535 do DG. Em 400m, uma fraca térmica.
Desliguei e recolhi o motor. Em 600m ficou fraca demais e procurei alguma
coisa melhor - sem sucesso. Afundamos rapidamente com 3m/s. Em 200m, na perna
do vento, liguei o motor novamente. Logo em seguida pegamos uma boa térmica
de 2m/s e o desliguei, com menos de um minuto, subindo até 1200m.
Rumo
ao Lanin, aquela montanha impressionante, 55km ao
norte, se formaram algumas pequenas nuvens, quase invisíveis. "Rudi,
vamos até o Lanin? Será que lá tem mais vento e nós pegamos colina ao lado
noroeste dele?" "Ok,
mas não vai ser fácil! Pra lá o terreno sobe 1200m, a base é baixa, tem
vento de proa. Pode tentar, se você estiver com espírito de luta!" Na
realidade não estava tanto naquele dia.
Fomos
lá, subindo gradativamente, muitas vezes pouco acima das rochas, várias
vezes recuando para o vale. Finalmente, em 2600m MSL, a altitude era
suficiente para atravessar os morros e o lindo Lago Huechulafquen. Este lago
tem uma extensão de 35km na direção leste-oeste. Ele serve como um canal
Venturi, e freqüentemente gera velocidades de vento bem elevadas, mesmo em
dias relativamente calmos.
Tivemos
sorte. Em poucos minutos o vento aumentou de 10km/h para 25km/h. Explorando as
regiões favoráveis, já conhecidas de outros vôos, entramos em uma onda
fraca de 1m/s. Acabou em 3300m. Ao nosso lado estava o enorme vulcão Lanin,
ainda 500m mais alto. "Rudi, mais alto não dá! Vamos fazer uma bela
volta em torno do Lanin e pegar o elevador no lado oeste?"
Nosso
vôo panorâmico deu completamente errado. Vento irregular até 45km/h,
descendente forte, nada de ascendente no oeste, vento sempre do lado errado.
Perdemos 1600m, até que finalmente eu consegui centrar uma mistura rasgada de
térmica e rotor.
Novamente
em 2800m, nós percebemos que o tempo estava mudando. O vento estava mais
forte, na faixa de 30 a 40km/h, e haviam se formado traços de nuvens, que
revelavam claramente a posição de alguns rotores. Avançamos para o rotor
melhor formado, perto do Lanin. De repente, muita turbulência, 5m/s para
cima, 6m/s para baixo. O DG dançou e fez algumas capriolas. Felizmente estávamos
com os cintos bem apertados e com tudo bem guardado dentro do cockpit. Lembrei
de um buraco no capô de um Calif (Caproni, planador biplace Italiano lado a
lado), que uma lata solta de CocaCola furou.
Avancei
contra o vento e o fantasma desapareceu. Silêncio total, entramos na onda,
subindo com 2,5m/s integrados. Marcada a posição no Zander, nós continuamos
a nossa subida em suaves curvas em "S". Poucos minutos se passaram.
Havia menos cascalho nas encostas, mais neve, uma geleira grande. O Lanin
parecia afundar à nossa frente. Passamos o pico. Será que havia alguém lá,
nesta hora? Achava que não. Mas havia pegadas na neve! Dava para ver
claramente. Fantástico!
"4100,
precisamos ligar o EDS, ponha a cânula de oxigênio, cilindro aberto!" O
Rudi me arrancou dos meus sonhos. "Claro! Mas primeiro me passe o meu
casaco, está um pouco desagradável nesta camiseta fina!" Logo depois
coloquei a cânula e liguei o EDS que fornece o oxigênio, este gás vital, de
uma forma super-econômica: ...XXT .....XXT .....XXT... com cada respiração.
5500m:
Felizmente este casaco de fleece tinha ficado no planador. O coloquei com a
abertura para trás, vestindo apenas as mangas. Ajudou bem. Estávamos quase
em cima do pico do Lanin agora 1700m mais baixo e difícil de reconhecer,
porque tudo era uma grande superfície branca de neve e gelo.
6300m:
Subindo com 0.5m/s. "Puxa, Rudi, como está frio! Não vale a pena ficar
com meio metro. Vamos embora e descer!" "Claro, vamos! Também estou
com os pés congelados, principalmente o direito!"
O
céu estava mais leitoso agora, mais pálido. Ainda não era tarde, 18:45hs.
Sobravam praticamente mais 2 horas antes do pôr-do-sol. Algumas nuvens
lenticulares apareceram no sul, bem longe, além de Bariloche, afastadas
200km. E uma lenti isolada, bem fina, em cima do Cerro Chapelco, 75km à nossa
frente! A cada minuto que passava
esta nuvem ficava mais definida, mais bem formada e mais alta. Corremos até lá,
60km. Chegamos em cima de San Martin de los Andes, em 5300m, no começo da
onda. Agora estava enorme, cinza, alta, com 40km de extensão para o sul.
Subimos em vôo reto, suave, sem nenhuma turbulência, com o frio cada vez
mais intenso.
"Rudi,
não tem luvas aí atrás? Estou com a mão direita congelada! Não consigo
mais segurar o manche!" "Aqui, achei um par de meias e um capuz de
fleece. Isso serve?" Coloquei o capuz. Enfiei a mão nas duas meias.
Melhorou um pouco.
7200m:
Ainda subindo com 1,5m/s, vento 57km/h, 268 graus. Temperatura externa menos
24 graus. Havia pouco gelo no capô, mas estava bastante frio na cabine. O
Zander, após vários ajustes no contraste, devido à temperatura baixa,
definitivamente encerrou sua prestação de serviços. Ficou preto.
7700m:
Menos 29 graus. Estava congelado! Não sentia mais os dedos, estava tremendo!
"Rudi, está com frio também? Vamos descer?" "Vamos!"
Abri os freios tão eficientes do DG e descemos rapidamente. Demoramos quase
uma meia hora para chegar abaixo de 1000m.
De
repente um estouro! "Rudi, que foi isso? Será que nós novamente
perdemos todas as fitas de mylar (fitas colocadas na junção aileron asa,
para melhorar aerodinâmica) da asa?" "Não sei, me pareceu mais
como uma tampa do motor voando. Foi bem perto da minha cabeça!" Rudi
começou as investigações no planador. Que alívio! Felizmente não tinha
sido nada mais grave. Implodiu a garrafa de água, quase vazia, que o Rudi
tinha aberta e fechada na pressão baixa de 6000m.
Pousamos
às 20:37hs, com vento calmo e temperatura agradável. Congelados, com
dificuldades, nós dois saímos do planador. Quase não conseguia andar. Na
Hosteria, demorei uma meia hora em baixo do chuveiro quente para me recuperar.
Um dia sem muita perspectiva inicialmente, nos presenteou com um vôo super-
interessante e bonito.
No
belo restaurante "Las Chachas" jantamos, Heinrich, Rudi e eu.
Acompanhado de uma boa garrafa de vinho tinto, contamos cada detalhe da nossa
aventura.
Certamente
será feito o favor para o Heinrich, de visitar a pista do Lago Hermoso. Num
outro dia.
Dados
do vôo:
DG-500M
com Karl Voetsch e Rudi Braun
Data:
9.12.2000
Altura
máxima: 7711m
Ganho
de altitude: 6569m
Tempo
de vôo: 7h 47min
Oc9zg450.zan
Karl Paul Voetsch, Campinas, Mar. 2001